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    ZEN, O CAMINHO, de Nunes de Azevedo

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    ZEN, O CAMINHO, de Nunes de Azevedo

    Mensagem  Convidad em Sex Jul 08, 2011 11:33 pm


    O CAMINHO DIRETO, de Murillo Nunes de Azevedo:
    Não se pode explicar o Zen por palavras. Quando Bodhidharma, introdutor do budismo, chegou à China, o imperador Wu lhe perguntou: ‘Construí um sem número de templos e mosteiros, nos quais sustento grande número de monges; copiei e traduzi enormes quantidades de textos sagrados do Buda. Com tudo isso que fiz, qual é o meu mérito?’ O sábio respondeu: ‘Nenhum, Majestade!’... ‘Então, ensine-me qual o supremo princípio do budismo’... ‘Um vasto vazio.’...O imperador, chocado com as respostas, quis desarmar o sábio e perguntou: ‘Quem é, então, que está sentado diante de mim neste instante?’... Resposta do sábio: ‘Não tenho a menor idéia. ’ (Isto é uma realidade que, parece, os homens não querem ver; ela os incomoda. A ignorância do homem é total. Nada sabemos de nada: porque estamos aqui? O que somos? O que é o ‘eu’? Nada! E quanto a méritos? O que o imperador fez foi apenas trazer paz ou satisfação àqueles que se interessavam pelo conhecimento do budismo. Mas, quanto ao seu mérito para a percepção da verdade, nada lhe foi acrescentado. Essa percepção independe das boas obras. Como disse Paulo: ‘Não é por nossas obras que somos salvos, para que não nos vangloriemos, mas pela graça de Deus’. Essa é a visão do misticismo: o que nos salva é a percepção do divino, que se pode atingir pela meditação).
    Todo pensamento de Bodhidharma está neste pequeno trecho:
    ‘Há uma transmissão fora das escrituras, sem depender de letras ou palavras, (ou obras) que vai à essência da mente, para que o indivíduo, por meio de uma visão clara de sua verdadeira natureza, alcance o estado de Buda’ (transmissão que pode ocorrer na meditação; então aquelas perguntas incômodas não mais terão razão de ser; tudo estará esclarecido).
    O koan é um exercício destinado a ativar a circulação espiritual por meio do despertamento das faculdades mentais mais profundas. Ficar sentado, espinha ereta, sem qualquer pensamento ou fixando a atenção só numa determinada coisa, é básico para acelerar a iluminação súbita.
    ‘Grande é a Mente! Ela vai além do céu e das profundezas, além da velocidade da luz e além do macrocosmo. É imenso o Universo; é imensa a Energia Primordial! Contudo, a Mente abrange o Universo e gera a Energia Primordial. Por causa dela, o sol e a lua se movem, as quatro estações se sucedem e todas as coisas são geradas. ’ (isto é, a Mente é tudo).
    ‘Para estar no Caminho a coisa mais importante é o sentar...’ Pensar sobre os koan ou os diálogos com os instrutores pode trazer uma certa compreensão mas, no fim, seremos levados para longe do Caminho. Passar o tempo sentado, ereto, sem qualquer pensamento de posse ou de conquista, sem qualquer idéia de atingir o satori, esse é o Caminho indicado pelo Buda. Muitos recomendaram o koan e a meditação sentada. Houve alguns que alcançaram a iluminação sob o toque do koan, mas a causa principal reside no meditar sentado.
    O koan serve para ativar o processo mental; equivale à corrida dos aviões na pista para que ganhem velocidade para decolar.
    Um monge, ao roshi: ‘Se todas as coisas se reduzem ao vazio, este a que se reduz?’... ‘Minha língua é muito curta para vos explicar.’ ... ‘Por que ela é tão curta?’... ‘No interior e no exterior ela é da mesma natureza. ’ (não há como explicar; tem-se que sentir por si próprio; na verdade, nenhuma resposta a qualquer pergunta é completamente elucidativa; só viremos a compreender pela percepção da realidade final).
    ‘Minha mente não está tranqüila, mestre. Por favor, pacificai-a!’... ’ Traze-me tua mente e a pacificarei!’... ’Eu a procuro há muito tempo e não a encontro.’... ‘Pois, então, tua mente já está pacificada para sempre!’ (A busca só é terminada quando a mente estiver aquietada; quando todas suas operações cessam; então a mente estará pacificada, ‘esquecida’ e se chegará à percepção da realidade; nada mais resta a fazer).
    A verdade - comprovada por numerosas experiências libertadoras - é que uma simples gargalhada, grito, choque, som, luz repentina, ou uma dor podem conseguir aquilo que anos de meditação não conseguem. Uma doutrina tão sutil por certo será mal compreendida no Ocidente, e sua popularização tem produzido uma série de deformações. Assim, pensam que o Zen apóia o uso pleno dos sentidos, o amor livre, a bebida intoxicante, viver intensamente o momento... Tiram todo o seu caráter profundo, tornando-o superficial. Mas o que o Zen pretende é acabar com todos os rótulos daquilo que está além de todos os rótulos. Podemos ser profundamente religiosos sem nunca usar a palavra ‘Deus’, que é apenas um título de algo que se nega a ser contido num mero nome. Assim, o conceito de mente, no budismo, é idêntico ao conceito de Deus, desfazendo antigo mito de que o budismo é um sistema ateu.
    O Zen é uma técnica aberta a todos, visando à realização do sagrado em nós, usando um Caminho próprio, com exercícios adequados, para alcançar o âmago do nosso ser, que é onde está a verdade última. (Jesus: ‘O reino de Deus está dentro de vós’, e Paulo: ‘Vós sois o templo do Altíssimo’).

    A COISA EM SI, O OBSTÁCULO.
    Não podemos falar ou escrever sobre o Zen; seu espírito não é alcançado por palavras. Os pássaros cantam, o sol surge sem explicações. Assim deve ser com todas as coisas. ‘A coisa em si’ é a crença na separatividade, a barreira que corta o mundo em opostos, um centro para onde as várias ordens, camadas, graus e coisas de ordem inferior convergem. Assim surge (se convenciona pela linguagem) a noção de hierarquia. Pense no átomo, nas partículas, células, moléculas, órgãos e seres. Cada coisa é um degrau de um sistema superior. Do vírus ao homem, do grão de pó ao sol há uma hierarquia de sucessões. A caneta, o papel, eu, minha mulher na cozinha, o garoto que assobia na rua, o rádio tocando, tudo são coisas superpostas e interpretadas por nossa consciência. A noção, a crença neste ‘eu’ isolado, que escreve e sente seu mundo interior, é uma ilusão. (O ‘eu’ é apenas um feixe de memórias e de expectativas). Lembremos Krisnamurti, quando fala da flor, a flor que cada um vê de acordo com seu condicionamento, dando-lhe noções de estética, manchando-a com padrões humanos condicionados pela nossa natureza, como o cão de Pavlov ao som da campainha. A flor que vemos não é a flor em si, o silêncio do pôr de sol não é simples silêncio; há uma verdadeira nuvem (cadeia) de conceitos, lembranças, reflexos condicionados, que deformam o sol e a flor para nossa visão (dão-nos erradas interpretações daquilo que realmente ‘é’).
    Wei afirma: ‘Nenhum evento é coisa alguma a não ser uma experiência psíquica. ’ (tudo que percebemos ou sentimos pelos órgãos de relacionamento com o mundo, seja o mundo exterior ou interior, é uma experiência psíquica). Uma experiência psíquica é bem caracterizada, bem delimitada. É um eterno transporte para o espaço-tempo daquilo que acabamos de ver, ouvir ou perceber, após sofrer as deformações (comparação, interpretação, reflexão, julgamento) produzidas pelo filtro (nossa mente, o ego com suas associações e lembranças) que aquilo tem de atravessar.
    A visão da coisa em si não é experiência da psique, da mente localizada, da mente condicionada. O satori não pode ser alcançado por nossa psique, que é limitada. É um modo de ver as coisas como elas são, sem interpretações nem associações; é uma maneira de ver o novo, o incontaminado, o puro, o ápice, a raiz de todas as coisas e da vida. Quem teve disso, um vislumbre que seja, jamais esquecerá o seu sabor.
    Muitos se revoltam com o vazio da vida. Preenchem esse vazio com jogo, bebida, drogas, TV, clube, busca de beleza, dinheiro, poder, aventuras, riscos, adrenalina e outras coisas que ajudam a esquecer, e, acima de tudo, sexo. Tudo isso mergulhado num vazio total, na desesperança, na sujeira, na fumaça. É a fuga de uma vida sem sentido. Mas o Zen leva o homem a dar sentido à vida diária, sem fugir. Os Himalaias estão dentro de nós, como estão todos os deuses, demônios, inferno, paraíso e, acima de tudo, a paz fundamental (como afirmou, também, Bhoeme). É isso que o Zen nos faz perceber.
    Mergulhe! Busque o âmago do seu ser mas, antes disso, pare! Pare, por um momento, o gesto sem finalidade, o raciocínio sem controle, o remoer sem fim dos conceitos, os pensamentos e crenças sem base, as ilusões. Talvez, então, tenha a percepção profunda, que surge quando o fundo do ser se abre (o cérebro, a mente se esvazia, cessam suas operações), rompendo as camadas insuspeitas da consciência, fazendo a luz entrar. Esse parar é o começo do Zen; é se sentar pura e simplesmente. Atente para uma estátua do Buda: espinha ereta, olhos semicerrados, pernas cruzadas. Fique nessa posição, em lugar tranqüilo, meia hora, de preferência de manhã e à noite, sem pensar em nada e sem se opor aos pensamentos que vêm, vendo-os como nuvens que passam. E só. No início, sentirá dores nas pernas e costas, pensamentos teimosos, sórdidos, preocupações, dúvidas, lembranças, imagens. Mas, não dê importância a nada disso. Não espere que a iluminação surja repentinamente, nem pense nisso, nem em Deus, nem em Nirvana, que é ação pura, pensamento puro, percepção pura, sensação pura. A única maneira de andar no ‘caminho’ é ficar parado. Então podemos mergulhar na vida, viver no ‘olho’ do furacão sem fugir dele, porque, agora, compreendemos. E, tudo aquilo que sempre nos rodeou, situações e pessoas, se apresentará verdadeiramente novo, como sempre foi, mas não percebíamos porque nossas interpretações estavam erradas. A partir daí, não é preciso mais parar, nem mergulhar. Todas as coisas voltarão para onde sempre estiveram. Tudo continuará sendo o que sempre foi; somente nossa percepção do mundo, em face de nossa interpretação agora correta, será a realidade.
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    Monstrinho

    Mensagens : 145
    Data de inscrição : 22/05/2011

    Re: ZEN, O CAMINHO, de Nunes de Azevedo

    Mensagem  Monstrinho em Sab Jul 09, 2011 6:16 pm

    Olá,

    Muito bons esses textos sobre o Zen. Já li esse e aquele do Jung, introdutório ao livro do Suzuki.

    Lendo esses textos, parece que é algo já conhecido, mas esquecido, e que reaparece à conta de um deja vu, pois, não é verdade que, quando mudamos psicologicamente, e sobretudo quando suprimimos aquela ansiedade comum ao homem hodierno nos tornando relativamente aquietados, as pessoas e as coisas continuam como sempre foram, mas nós as vemos com outros olhos, com uma outra percepção?

    Considero muito oportunas essas postagens sobre o Zen, porque embora a Filosofia Vedanta e outras tenham muito a nos ensinar, o Zen é "curto e grosso", nos dizendo que devemos ser persistentes na busca do satori, que a tola e estúpida competição intelectual só nos afasta do Satori, Nirvana ou Reino dos Céus.

    Se é só da boca para fora que dizemos estar buscando o satori, então estaremos sendo hipócritas e sobretudo tolos. Uma vez perguntaram a Newton como ele descobriu a Gravitação, e ele respondeu "pensando constantemente nela".

    Assim também deve ser a busca das pessoas sinceras, lembrando contudo, como disse Krishnamurti, que "a meditação só gera algum resultado depois que colocamos a casa em ordem", ou seja, depois que o desejo de buscar o satori se torna uma verdade tão real para nós, que o buscamos assim como o homem de negócios busca o sucesso empresarial.

    A gente sabe muito bem quem são os que estão buscando e quem são os tolos que fingem essa busca, com o intuito único de criarem uma nova modalidade de prestíigio social. Como disse Jesus "esses já tiveram a sua recompensa", lembrando, como dizia um amigo nosso que "Deus dá a cada um aquilo que merece" - "Àquele que tem será dado e áquele que não tem será tirado até mesmo o que julga possuir" (Jesus).

    Enfim, muito oportunos os posts sobre o Zen, apontando caminhos para a prática imediata a todos os que estão empenhados na busca.

    Para os que desejam ardentemente, esses textos sobre o Zen inauguram um novo panorama de estudos e compreensões aqui neste fórum, dada a simplicidade com que tais idéias são expostas, estando portanto, à compreensão e acesso de todos.

    Abçs e obrigado pela valiosa contribuição!




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