Filosofia Oriental e Espiritualismo Prático

Últimos assuntos

Navegação

Parceiros

Fórum grátis

    ZEN, de Alan W Watts (Parte 1 de 2)

    Compartilhe

    Convidad
    Convidado

    ZEN, de Alan W Watts (Parte 1 de 2)

    Mensagem  Convidad em Sex Jul 08, 2011 11:49 pm

    ‘BUDISMO ZEN’, de Alan W. Watts:
    A cultura religiosa, filosófica e científica ocidental, devido a seu oceano de relativismo, tão sem rumo, nada oferece sobre a arte de viver no universo Zen, no vazio, pois isso, para nós, é terrivelmente assustador, habituados como estamos a absolutos, leis e princípios aos quais nos apegamos para alcançar segurança espiritual e psicológica (embora, como afirmam os mestres, não exista, em lugar algum e em tempo algum, segurança psicológica, espiritual ou fisiológica). No entanto, em vez de sentir qualquer espécie de terror, aquele que se aventura no Zen experimenta profunda satisfação, mesmo que a situação do Zen tenha sido sempre:
    ‘Em cima, nem uma telha para cobrir a cabeça;
    ‘Em baixo, nem um palmo de terra para apoiar os pés. ’
    Isso não é estranho para os cristãos, pois Jesus afirmou:
    ‘As raposas têm seus covis, e os pássaros do céu têm seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça’

    ‘Aqueles que sabem não falam;
    ‘Aqueles que falam não sabem’.
    Contudo, embora não ‘falem’, não ‘se fecham’ totalmente, pois desejam compartilhar sua compreensão (‘... coloquem sua luz sobre o velador para que ilumine a todos’). Mas, estão convencidos de que as palavras são absolutamente fúteis em face da cultura atual, que não permite discutir certas experiências. Usam, então, a atitude característica dos asiáticos do ‘Vem e vê por ti mesmo’ (isto é, ‘tente, experimente! Tenha sua própria experiência’. ‘Aquele que tiver olhos de ver, veja!’).

    CAMINHO DA LIBERTAÇÃO
    O Zen não é filosofia, religião, psicologia ou ciência. É o ‘caminho da libertação’ como o chamam. Para nós, quase todo o conhecimento é o que o Zen chamaria de convencional (convencionado, um acordo entre os homens), pois não temos a sensação de saber realmente qualquer coisa se não a pudermos representar sob a forma de palavras ou outra forma de sinais convencionados, como as anotações da matemática e da música. A tarefa da educação ocidental é tornar as pessoas aptas a viver em sociedade, levando-as a aprender e aceitar suas regras, através das quais a sociedade se mantém coesa (embora insana).
    Os termos copo, árvore, flor, céu, satori, Deus são convenções. Assim, a convenção científica diz se um animal é peixe ou ofídio, e a gramatical, que experiências são coisas. Porém, as palavras chinesas permitem que, quem pensa em chinês, tenha pouca dificuldade em ver que objetos são também processos, e que nosso mundo é mais um conjunto de processos (dinâmicos) do que um conjunto de coisas (como crê a filosofia ocidental).
    O convencionado ‘eu’ é constituído, principalmente, por uma história que consiste numa serie de memórias selecionadas, e se inicia no momento do parto. De acordo com o convencionado, não sou simplesmente o que agora sou. Sou também o que fui, e minha versão, convencionada, do meu passado, quase chega a parecer mais meu ‘eu’ real que aquilo que neste momento sou. O que sou parece fluido e intangível, enquanto o que fui é fixo e final. Daí decorre que, devido às convenções, eu estou mais identificado com o que já fui, com o que já não existe, do que com o que realmente sou agora.
    É importante compreender que recordações e acontecimentos passados, que fazem a identificação histórica de um homem, são apenas lembranças selecionadas. Da quase infinita quantidade de acontecimentos e experiências, pelos quais passamos, alguns são escolhidos – abstraídos - como significativos, e tal significação é determinada a partir de padrões convencionais. As fotografias e imagens da televisão são exemplos do mesmo processo. A cena natural é reproduzida por pontos claros e escuros, dispostos de modo a darem a impressão de uma foto que, por muito que se assemelhe à cena original, é apenas uma reconstituição em termos de pontos, assim como palavras e pensamentos são reconstituições, em termos de sinais convencionais e abstratos, de tudo que vemos, ouvimos, sentimos, saboreamos, cheiramos, nas experiências do dia-a-dia.
    Livrar-se das convenções não é expulsá-las violentamente, mas não ser por elas iludido. É estar apto a usá-las como instrumento, em vez de ser usado por elas. O Ocidente não possui qualquer instituição que corresponda a isso porque sua tradição espiritual hebraico-cristã identifica Deus com a ordem moral e lógica de todo convencionalismo que a cultura nos trouxe. Essa é uma das maiores catástrofes culturais (‘a cultura ocidental é prostituta’), porque dá excessiva autoridade à ordem social atraindo, precisamente, as revoluções contra a religião e a tradição, tão características da história ocidental...
    A biologia e a fisiologia, por exemplo, são tipos de conhecimentos que representam o mundo real através de categorias abstratas específicas. Medem e classificam o mundo de acordo com o uso particular que dele querem fazer, tal como um fazendeiro vê a terra em termos de hectares, um empreiteiro em termos de caminhões ou toneladas de terra, um agrônomo em termos de composição química.
    Assim, para entendermos o Zen, devemos estar preparados para admitir a possibilidade de encarar o mundo de um modo diferente do convencional, diferente do conteúdo das camadas superficiais da nossa consciência, que só apreendem a realidade sob a forma de um pensamento de cada vez. O Zen liberta a mente humana dessa falsa identificação com o ego abstrato, dando-nos um enfoque totalmente diferente daquele a que estamos habituados pelas convenções.

    Nossas decisões repousam fundamentalmente sobre nossa capacidade de ‘sentir’ a situação; portanto, agimos por ‘palpite’ ou ‘visão’ que temos das coisas que não sabemos o que são. Os resultados são melhores se não tentamos interferir, se deixamos que a mente trabalhe espontaneamente, ‘por si’. ‘O princípio do Tao, como o do Zen, é a espontaneidade’. Esse é um dos princípios mais importantes, o ‘processo’, o movimento natural do fluir da vida.
    ‘Quando o homem superior ouve falar do Tao,
    ‘Faz o possível para praticá-lo.
    ‘Quando o homem médio ouve falar do Tao,
    ‘Umas vezes o guarda, outras vezes o perde.
    ‘Quando o homem inferior ouve falar do Tao,
    ‘Ri dele em altas gargalhadas.
    ‘Se não ri, não é o Tao’.
    Isso porque é impossível apreciar o que o Zen significa, sem passar a ser, num sentido especial, estúpido ou louco. Assim, falou Lao-tzu:
    ‘As pessoas em geral parecem tão felizes como se estivessem numa festa. Só eu estou tranqüilo e, sem fazer sinais, como uma criança ainda incapaz de sorrir; desamparado como se não tivesse casa para onde ir. Todos os outros têm mais que o suficiente e só eu pareço ter carências. Talvez minha mente seja como a mente de um louco. Os vulgares são brilhantes e só eu pareço enfadonho. Os vulgares são sensíveis a tudo e só eu pareço insensível. Sou negligente como se fosse confuso; sigo como se nada me prendesse. As pessoas em geral têm todas algo que fazer e só eu pareço pouco prático e desajeitado. Só eu sou diferente dos demais. Mas (isso tudo é porque) dou valor em procurar alimento na Mãe (Tao, Zen)’, e Chuang-tzu:
    ‘O homem perfeito usa a sua mente como um espelho. Ele nada aprisiona e nada recusa. Recebe, mas não conserva. Vive em casa sem exercitar sua mente e executa ações sem preocupação. A noção de certo e errado, o louvor ou a censura, não o perturbam. Quando em qualquer parte todas as pessoas se divertem, aí está a felicidade para ele. Pesaroso no aspecto, parece uma criança que perdeu a mãe; parecendo estúpido, anda ao acaso como alguém que se perdeu no caminho. Tem muito suprimento, mas não sabe de onde lhe vem. Bebe e come o estritamente necessário e não sabe de onde vem o alimento’.
    Lao-tzu:
    ‘Suprime a sagacidade; abandona o saber, e o povo terá centuplicado benefício. Suprime a ‘humanidade’; abandona a justiça, e o povo terá de novo amor pelo semelhante. Suprime a esperteza, abandona o utilitário, e não haverá ladrões e salteadores... Torna-te desafetado, estima a sinceridade, minimiza o que é pessoal, reduz os desejos’.
    A idéia não é reduzir a mente humana a uma imbecil vacuidade, mas trazer de novo à cena sua inata e espontânea inteligência, usando-a sem a forçar.
    Lao-chang:
    ‘Deixei que a mente pensasse o que lhe aprouvesse, e ela deixou de se preocupar com o certo e com o errado; deixei que minha boca pronunciasse o que quisesse, e ela deixou de falar em lucros e perdas. Ao fim de anos, minha mente soltou as rédeas às suas reflexões e minha boca deu passagem ao seu discurso. De certo e de errado, de lucros e perdas, não tinha eu conhecimento tanto ao que a mim se referia como ao que se referia aos outros. O interno e o externo (tudo) tinham se fundido na unidade. Não havia distinção entre o olho e ouvido, ouvido e nariz: todos eram o mesmo... ’
    Lao-tzu:
    ‘A virtude verdadeira não tem consciência de si própria como virtude; por isso é realmente virtude’.

    Nem se pode imaginar o engenho e o poder criador, espontâneo e natural da mente humana, mas esse poder está bloqueado, pois tentamos dominá-lo com nossas interferências de métodos e técnicas formais, não naturais, em face de nosso condicionamento nascido dos costumes sociais, linguagem, cultura etc. Vejam que usando, com destreza, suas cem pernas ao mesmo tempo ‘a centopéia era completamente feliz, até que, brincando, um sapo disse: ‘Qual é a perna que moves primeiro?’ Isso tanto lhe trabalhou na mente, que ficou parada num sulco, pensando em qual perna mover primeiro para dali sair’.
    ‘Na representação, no fictício (na nossa ilusão), Deus se divide (o mundo se divide) mas, na realidade, mantém-se indiviso. Assim, quando chega o final da peça, a consciência individualizada desperta para se descobrir divina’ (e una).
    .............................................
    A mitologia hindu constrói o tema do drama divino numa escala fabulosa, com os efeitos colossais de tempo e espaço, os extremos de prazer e dor e de virtude e depravação. Os opostos luz e trevas, bem e mal, prazer e dor, são elementos essenciais desse drama. Pois, ‘embora Deus se identifique com a Verdade, Consciência e Bem-aventurança, o lado escuro da vida tem sua parte no drama, como qualquer drama tem o seu vilão para movimentar o jogo. O mundo convencional e relativo é, necessariamente, um mundo de opostos. Sem a escuridão, é inconcebível a luz; a ordem não tem sentido sem a desordem e o mesmo se dá com todos os opostos. ’ (bem e mal, certo e errado etc.).
    ................................
    Diz Coomaraswamy:
    ‘Para aquele que afirma que Deus fez o mundo, a questão ‘Porque ele permitiu a existência do mal ou daquele que personifica todo o mal (o Demônio)?’ não tem, em absoluto, resposta. ’
    Essa filosofia só é compreendida ao compartilhar da experiência do tipo de conhecimento não convencional, experiência chamada de autoconhecimento, auto-despertar, pois é a descoberta ‘daquilo que sou’, quando já não me identifico com qualquer definição convencional de mim mesmo. Então, ‘Eu sou Brama’ ou ‘eu e o Pai somos um’, pois o autoconhecimento é uma compreensão da nossa identidade original com Deus. Assim, a prática do caminho da libertação é um progressivo desembaraçar o ego de qualquer identificação. É compreender que não sou este corpo, estas sensações, estes pensamentos, esta consciência. A realidade de minha vida não é nenhum objeto concebível. Fundamentalmente, nem mesmo deve ser identificada com qualquer idéia, como Deus ou atman, alma ou espírito. No momento em que todas as identificações do meu ‘eu’ com qualquer objeto ou conceito cessam, brota das minhas profundezas a consciência do Buda (ou do Cristo), estado que se chama divino. Essa descoberta mostra que este mundo, que parecia ser múltiplo, é na verdade Uno, que tudo é Deus e que toda dualidade não passa de falsa interpretação nossa, ilusão, portanto.
    O múltiplo mundo dos fatos, acontecimentos e dualismos é considerado maya, a ilusão que oculta a realidade do Buda. Maya vem do sânscrito matr, medir. O processo fundamental da medida é a divisão, quer seja desenhando uma linha, um círculo com o compasso, ou distribuindo grãos e líqüidos por medidas. Dizer que o mundo dos acontecimentos e fatos é maya significa que fatos e acontecimentos são termos convencionados de medida e não realidades da natureza. Logo, acontecimentos ou fatos são tão abstratos como linhas de latitude, ou como centímetros e decímetros. Tudo convenções. Considere como é impossível isolar um fato qualquer, pois um único objeto é inconcebível sem o espaço que o circunda. Uma palavra nesta folha não existe se a separarmos da folha, seu pano de fundo. Definir, estabelecer limites são atos de divisão e, portanto, de dualidade dado que assim que um limite é definido logo apresenta dois lados: esquerdo e direito, acima e em baixo, eu e você, Deus e o Diabo, espírito e matéria, bem e mal, céu e inferno, vida e morte, justo e injusto etc.
    Este ponto de vista é assustador, e bastante difícil de compreender para aqueles habituados a pensar que coisas, fatos e acontecimentos são os próprios blocos que constituem o mundo, que são a mais sólida das realidades. Isso não é ver tudo como um vácuo. Aquele que compreendeu vê o mundo que nós vemos, mas não o marca, não mede, nem o divide do mesmo modo. Não o encara como real ou dividido em coisas e acontecimentos separados. Ele vê que a pele tanto pode ser encarada como aquilo que nos separa, como com aquilo que nos une (onde termina a pele, começa o resto do mundo). Assim, seu ponto de vista não é monístico. Para ele a realidade é ‘não-dual’. Unir é maya, separar é maya. Assim, maya é uma doutrina de relatividade. É dizer que fatos e acontecimentos são originados, não pela natureza, mas pela convenção humana, e que o modo como os convencionamos (ou dividimos) é fruto da variedade dos nossos pontos de vista.
    É fácil verificar o caráter convencional das coisas. Regra geral, um organismo é encarado como uma única coisa, embora, sob o ponto de vista fisiológico, seja tantas coisas quantas as suas partes e órgãos, e sob o ponto de vista sociológico seja meramente parte de algo maior que se chama grupo, família, sociedade, humanidade. Essas coisas, aparentemente separadas, não existem separadas, mas apenas umas em relação com as outras. Nesse sentido, o objeto e o espaço que o circunda, a personagem e a cena, o som e o silêncio, o existente e não existente, são inseparáveis, interdependentes, ‘mutuamente originantes’ e só através de maya (ou divisão convencional que constrói ilusões) poderão ser considerados separadamente.
    A forma também é maya por ser impermanente. O budismo fala do vazio ou ilusório mundo visível da natureza porque sabe da impermanência das formas. Forma é resultado do fluxo, do fluir de todas as coisas e, portanto, maya. Designamos objetos e coisas por nomes e palavras, porque são, precisamente, os substantivos e os verbos, por nós convencionados, o meio pelo qual todas as categorias abstratas e conceptuais de coisas e acontecimentos são designadas.
    O uso das palavras é tão satisfatório que o homem está sempre em perigo de confundir os nomes com as coisas reais que representam, de confundir a rígida convenção com a realidade do mundo (Krishnamurti: ‘A palavra não é a coisa’). Mas, do mesmo modo que identifica a si próprio e sua vida com as rígidas definições da convenção, o homem se condena à perpétua frustração de alguém que tenta carregar água numa peneira (pois suas interpretações do mundo e de seus eventos estão sempre incorretas).
    Maya é equiparado a ‘nome-e-forma’, em face da tentativa da mente de aprisionar as formas fluidas da natureza na rede das classes fixas. Mas quando se compreende que forma é vazio – no sentido específico do inapreensível (que não se pode reter, apreender) e incomensurável (que não se pode medir, pois é impermanente) – o mundo da forma é visto mais como Deus do que como maya. O mundo convencional torna-se o mundo real quando percebemos sua mutável fluidez (impermanência). Daí advém que a própria transitoriedade (impermanência) do mundo constitui o sinal da sua real identidade com a indivisível e incomensurável infinidade de Deus.
    Esse pensamento de transitoriedade só é depressivo para aquele que insiste na tentativa de aprisionar mas, para aquele que abre os braços e se deixa levar na corrente fluida da mudança, para a mente que se torna ‘como uma bola flutuando no rio que desce o morro’ (entregar-se; deixar que as coisas aconteçam), a sensação de transitoriedade ou vácuo é um êxtase.
    Resumindo, a doutrina maya afirma, primeiro, a impossibilidade de aprisionar o mundo real em palavras e conceitos e, segundo, o caráter fluido do mundo real, de suas formas que o pensamento tenta definir. O mundo dos fatos e acontecimentos é todo ele definido por nomes convencionados e abstratos; suas formas são, absolutamente, fluidas e nada as apreende (impermanentes; estão sempre fluindo). Há algo de ilusório até na idéia de Deus que, mesmo sendo a realidade por trás do fluxo, é apenas um conceito, tão incapaz de apreender o real como qualquer outro conceito (ou nome).

    O Buda muito lutou para encontrar como escapar da escravidão à maya, do círculo vicioso do ‘apego-à-vida’. Os seus esforços foram em vão. Por mais que se concentrasse sobre a própria mente, atrás de respostas, apenas deparou com seu próprio esforço de concentração. Quando desistiu de lutar, subitamente lhe veio um estado de perfeita clareza e compreensão. Era o ‘completo acordar’, a libertação de maya, do samsara. Mas, o conteúdo dessa experiência não pode ser traduzido em palavras. (Paulo: ‘... e lá vi e ouvi coisas inefáveis’). O Buda nunca disse uma palavra sobre experiência, porém, ensinou as quatro verdades:
    1) A identificação da doença do mundo: a dor, por estarmos ligados às coisas que nos fazem sofrer, e separados das coisas que nos dão prazer. A vida, como a vivemos, é sofrimento, devido à frustração que resulta de tentarmos o impossível; o mundo está sempre mudando (é impermanente) e, por isso, não conseguimos tornar duradouras as coisas que nos dão prazer.
    2) A causa dessa doença: a frustração, o apego e desejo de posse, devidos à nossa ignorância ou inconsciência (consciência restrita, pequena). É o estado da mente que não acordou, hipnotizada por maya, de modo que toma o mundo dual e abstrato, das coisas e acontecimentos, pelo mundo da realidade. Vem da falta de autoconhecimento, o que nos traz uma visão ilusória. Tentar agarrar a vida é autofrustração, pois ela não passa de um fluir, de impermanência, de mudança contínua das coisas e acontecimentos. Tentar agarrá-la é ação condicionada, baseada num motivo e buscando um resultado; isso é o karma pois sempre requer uma ação posterior. O homem se envolve com o karma quando interfere com o mundo de tal modo que é obrigado a continuar com a interferência, pois a solução de um problema cria mais problemas. O homem prepara uma armadilha para o mundo e é ele quem cai nela. Essa a razão de todo o sofrimento.
    ...............................................
    (Não tome a figura da roda do nascimento e da morte como o processo de reencarnação; esta é encarada no misticismo em sentido figurado, pois a reencarnação ocorre em todos os momentos, de modo que o indivíduo está a renascer enquanto se identifica a si próprio com um ego contínuo (mas falso) que se reencarna de novo em cada momento do tempo).
    ..................................................
    3)O prognóstico quanto à possibilidade de cura: a possibilidade de cessar a auto-frustação vinda da tentativa de agarrar, conduta viciosa (condicionada) que gera todo sofrimento. E eis o nirvana; o cessar das ondas, redemoinhos ou círculos da mente. É ver a inutilidade de tentar agarrar a vida; é reconhecer que a vida acaba sempre por derrotar nossos esforços para controlá-la; que toda a luta humana não passa de uma tentativa de agarrar nuvens. Os redemoinhos são os pensamentos através dos quais a mente se esforça por agarrar o mundo e a si mesma. Esta terceira verdade surge da tentativa de encontrar uma solução para o problema até que, depois de buscar em todos os caminhos, a extrema futilidade do processo seja tão ‘sentida’ que este acabe por se perder, e a mente descubra seu estado natural que escapa a qualquer definição e é incomensurável e infinito. Nirvana é o estado de Buda. Ele só pode ocorrer espontaneamente (naturalmente), quando se percebe o total absurdo que é tentar agarrar a vida.
    4) A prescrição do remédio: é o método pelo qual a auto-frustração é aniquilada. Traz a correta compreensão da condição humana e do mundo tal como ele é, e exige uma viva atenção ao mundo como é ‘imediatamente percebido’ (pela ação de ver, ouvir, sentir, cheirar, degustar, isto é, as ações dos sentidos, que são, no primeiro instante, atemporais e, num segundo instante, devido a associações daqueles estímulos com o que temos na memória, tornam-se condicionadas) de modo a não ser iludido por nomes ou rótulos; é pura experiência, pura compreensão, onde não há lugar para o dualismo de observador e coisa observada, sujeito e objeto.
    O budismo não compartilha o ponto de vista ocidental de que existe uma lei moral, ordenada por Deus ou pela natureza, que o homem deve obedecer. Os preceitos de conduta do Buda (não tirar a vida, não nos apoderarmos do que não nos é dado, não explorar as paixões, não mentir e não se intoxicar) são regras voluntariamente aceitas para remover os obstáculos à clareza da compreensão (para a meditação, como também devem ser os mandamentos e as regras morais de qualquer religião).
    O completo recolhimento é estar, sempre, no momento presente, ciente ou atento às próprias sensações, sentimentos e pensamentos – sem propósito nem julgamento. É uma total clareza e presença da mente, ‘ativamente passiva’, enquanto os pensamentos vêm e vão como reflexos num espelho: nada é ali preso, agarrado, refletido, exceto aquilo que é.
    ‘Andando, parado, sentado ou deitado, ele compreende o que está fazendo, de modo que, embora seu corpo esteja empenhado na ação, ele compreende e está atento a tudo que faz tal como é. Ao ir ou vir, ao olhar em frente ou derredor, ao dobrar ou estender o braço, em qualquer ação, ele age com completa compreensão (atenção) daquilo que está fazendo’.
    Através dessa compreensão vê-se que a diferença entre observador e coisa observada, sujeito e objeto, é puramente ilusão. Não existe a mente por um lado e suas experiências por outro. Existe apenas um processo de experimentar em que nada há para ser agarrado como objeto, e ninguém, como sujeito, para agarrar. Visto assim, o processo de experimentar deixa de se apegar a si próprio. Um pensamento segue outro sem interrupção, sem necessidade de se dividir para tornar-se seu próprio objeto.
    ‘Onde há um objeto, surge um pensamento. Será o objeto uma coisa e o pensamento outra? Não; o que o objeto é, é-o também o pensamento. Se fossem coisas diferentes, haveria um duplo estado de pensamento. Logo, o próprio objeto é apenas pensamento. Mas o pensamento pode examinar outro pensamento? Não; tal como uma espada não pode cortar-se a si mesma, o pensamento não pode ver-se a si mesmo. ’
    Esta não dualidade da mente, que não se encontra mais dividida contra si mesma, é samadhi, e, graças ao cessar das vãs tentativas da mente para agarrar-se a si própria, é um estado de perfeita paz. Não é a quietude de uma total inatividade; assim que a mente volta ao seu estado natural, o samadhi mantém-se em todas as situações, ‘andando, parado, sentado e deitado’.
    Meditação é um estado de recolhimento, descrito como estado de atenção total unificada, sem qualquer desvio, unidirecional. Atenção toda direcionada para o momento presente pois, na perfeita atenção, não existe passado nem futuro; existe apenas este momento, o Eterno Presente, o Agora Eterno, a Eternidade.
    ‘Um Buda é aquele que vê o que há para ver; não se prende ao que é visto, ao processo de ver, ou àquele que vê’. .................................
    ‘Apenas o sofrer existe, ninguém que sofra;
    ‘O ato existe, não quem o tenha praticado;
    ‘Nirvana é, sem ninguém que o procure;
    ‘Há o Caminho, mas não quem o percorra.’
    ...................................
    Quando inquirido sobre o nirvana, a origem de tudo ou a realidade, o Buda ficava em silêncio; dizia que tais perguntas eram irrelevantes e não conduziam à libertação. Nirvana é o estado em que a mente está liberta de todos os conceitos; cessou, completamente, a tentativa de agarrar a realidade, pela compreensão de que isso é impossível. Sendo o ego apenas convenção, é insensato pensar no nirvana como um estado a ser atingido por qualquer ser ou ego, pois estes não existem.
    ‘Todos os seres sensíveis são levados por mim a atingir a libertação sem limites do nirvana. Mas, mesmo que incomensuráveis quantidades de seres tiverem sido assim libertados, em verdade nenhum ser terá sido libertado! Por quê? Porque não existe nenhum ego, nenhum ser, ou indivíduo separado dos outros (o ego, o indivíduo, não passa de convenções humanas, ilusões, portanto; e não existe alcançar o nirvana porque tudo já é nirvana, como não existe alcançar Deus porque tudo é Deus).
    Nossa escravidão ao samsara é mera aparência; já estamos no nirvana. Assim, buscar o nirvana é querer encontrar aquilo que nunca se perdeu.
    ‘Se o meu agarrar à vida me envolve num círculo vicioso, como poderei aprender a não agarrar? Como poderei tentar soltar, se tentar é precisamente não soltar?’
    Logo, tentar não agarrar é o mesmo que agarrar já que seu motivo é o mesmo – meu desejo de me salvar de uma dificuldade. Não posso ver-me livre desse desejo porque ele é precisamente o mesmo desejo que o desejo de me ver livre dele. Este é problema familiar a todos, o ‘entre a espada e a parede’ psicológico: criarmos um problema por tentar resolvê-lo, nos preocuparmos porque nos preocupamos, termos medo de ter medo. Queremos nos agarrar às concepções que construímos acerca das coisas, as quais julgamos a realidade, como ideais, crenças, religiões, esperanças supremas e ambições de toda espécie, que nossa mente procura e às quais se agarra para sua segurança física ou espiritual (psicológica) (segurança que não existe em nenhum lugar e em tempo algum).
    O Zen mostra que nenhuma coisa tem natureza própria ou é independente das demais (como também mostra a física quântica). Nada do universo (coisa, ser, fato, acontecimento) se sustenta por si próprio. Por isso, é absurdo singularizar qualquer coisa como um ideal a ser atingido. Porque, o que é singular apenas existe em relação ao seu próprio oposto, pois o que é se define pelo que não é, o prazer pela dor, a escuridão pela luz, o movimento pela imobilidade. Logo, o nirvana implica a existência do samsara, a busca do despertar implica que se está no estado de dormir e de corrupção pelo ilusório. Em outras palavras: quando se faz do nirvana um objeto do desejo, ele se torna um objeto de samsara.
    ‘O que é que significa não-dualidade? Que luz e sombra, comprido e curto, preto e branco, vida e morte, bem e mal, justo e injusto são termos relativos e não independentes um do outro, tal como nirvana e samsara; todas as coisas são não-duas. Não há nirvana exceto onde há samsara; não há samsara exceto onde há nirvana, porque a condição da existência não é de caráter mutuamente exclusivo. Todas as coisas são não-duas. ’
    Assim, aquilo que nos parece ser samsara é na realidade nirvana, e o que parece ser o mundo das formas e objetos é o mundo do vazio. Daí:
    ‘A forma não é diferente do vazio, o vazio não é diferente da forma. A forma é precisamente o vazio; o vazio é precisamente a forma’.
    Isso não significa que o acordar faz que o mundo da forma desapareça, mas que vamos interpretá-lo como a realidade que é. É necessário ‘sentir nos ossos’ que nada existe para ser alcançado. Esse sentir só a meditação traz. Aí esta toda bem-aventurança. A tranqüilidade e a alegria de perceber isso nos libertam de todos os sofrimentos, das frustrações de tentar agarrar o que não pode ser agarrado. Assim, todos os atos intencionais - desejos, estratégias, planos, ideais – são em vão. No universo não há nada para se agarrar e não há ninguém que possa agarrar. E esse que busca, que vê, sabe e deseja, o sujeito interior, apenas tem existência em relação aos objetos efêmeros da sua busca. Ele vê que agarrar o mundo é também o apertar o laço no seu próprio pescoço, aquilo que o priva daquela vida que ele tanto deseja atingir. E não há saída para isso, um modo de deixar de agarrar que ele possa vir a fazer por seu próprio esforço, por uma decisão de sua vontade (a única saída é o esquecimento do eu, que a meditação pode proporcionar).
    Chega um momento que a consciência da armadilha sem saída, na qual somos o caçador e a caça (a mente que busca a mente), atinge o ponto de ruptura; amadurece e, de repente, dá uma reviravolta no mais profundo da consciência. O casulo, em que o bicho da seda se aprisionou, abre-se e ele voa feito borboleta. Não há mais constrangimento ou angústia. Artifícios, ideais, ambições e autoconciliações não são mais necessários porque, agora, ele vive espontaneamente sem tentar ser espontâneo. Vê o mundo sem as ilusões e divisões das conceituações, símbolos e interpretações falsas. Percebe o concreto e real como diferente do abstrato e conceptual.
    Nada temos a fazer para essa transformação, já que temos a natureza de Buda. É só percebermos que já somos o Buda. Então, veremos que não há incompatibilidade entre nirvana e samsara, entre vazio e forma. Pelo Iogacara, o mundo da forma é apenas mente, ‘representação’. As formas são ‘formas de mente’. Tudo é mente. O mundo real não contém classes ou símbolos que signifiquem qualquer coisa além deles mesmos. Assim, não comporta nenhuma dualidade. Dualidade só surge quando classificamos, quando distribuímos as nossas experiências por caixas mentais. Classificamos assim que notamos diferenças, assim que fazemos associações de qualquer espécie. Dizer que o mundo é apenas mente, significa que exterior e interior, antes e depois, pesado e leve, agradável e doloroso, móvel e imóvel, trevas e luz, bem e mal, justo e injusto são apenas idéias ou classificações mentais.
    ‘Da mente brotam inúmeras coisas, condicionadas pela classificação, e as pessoas as aceitam como se fossem o mundo exterior’.
    O Zen inverte o processo em que normalmente se encontra nossa mente; (pela meditação) detém a atividade da mente, deixa que as categorias de maya cessem, e que o mundo seja visto no seu inclassificado estado. O Zen é direto no modo de ensinar; aponta diretamente a verdade. Traz a sensação de que o acordar é perfeitamente natural e que pode ocorrer a qualquer momento. Se há alguma dificuldade é por ser demasiado simples. Acordar não é atingir coisa alguma; é perceber. E não há fases progressivas. Por isso procurá-lo é perdê-lo, pois o nirvana está aqui e agora, no momento presente onde temos de percebê-lo diretamente. E ninguém o fará por nós.
    .................................... Fim da parte 1 de 2.................................

      Data/hora atual: Ter Nov 20, 2018 10:29 am