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    ZEN, de Alan W Watts (Parte 2 de 2)

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    ZEN, de Alan W Watts (Parte 2 de 2)

    Mensagem  Convidad em Sex Jul 08, 2011 11:55 pm

    BUDISMO ZEN, Alan W Watts Continuação e fim (Parte 2 de 2)

    ‘Não te vicies no pensamento contemplativo, que é puro na sua natureza; mas persiste na bem-aventurança de ti próprio (pois já és o Buda) e cessa tais tormentos. O que quer que vejas, eis o que é, à frente, atrás, em todas as direções. Deixa que, já hoje, teu mestre ponha fim à ilusão! A natureza do céu é originalmente clara. Mas, mirando-o e voltando a mirá-lo, torna-se obscuro. ’ (na segunda mirada entra a interferência do ego e tudo se esvai).
    .........................................
    A mente acordada reage imediatamente (espontaneamente) sem qualquer cálculo. A idéia popular de que a salvação vem da prática de boas ações é desmentida na conversa do imperador Wu com o mestre Bodhidharma, vista anteriormente (e por Paulo: ‘não é por nossas obras que somos salvos, mas pela graça de Deus’). Por isso,
    ‘O perfeito Zen é sem dificuldade, salvo no evitar colher e escolher’. (Krisnamurti afirmou: ‘Aquele que escolhe é imaturo’).
    E ainda:
    ‘Não sejas antagônico ao mundo dos sentidos, pois quando não lhe és antagônico, verificas ser ele o mesmo que o completo despertar’. (Não seja antagônico, isto é, aceite tudo que os sentidos lhe apresentam e não interfira, não julgue, não dê valores; tudo é apenas o que é).
    Ou:
    ‘Tua mente é como um espelho de cristal. Tem o cuidado de o limpar constantemente, não deixes que a ele se prenda qualquer pó’ (qualquer pensamento, emoção imagem, lembrança, expectativa etc.; que tua mente, o espelho de cristal, apenas reflita o que está a sua frente; não julgue).
    ‘Mente e Buda (Deus, Cristo, samadhi, nirvana etc.) são uma só coisa, embora variem seus nomes’. Como, pois, usar a mente para buscar o Buda, se ela é o próprio Buda? Isso é usar o Buda para agarrar o Buda, usar a mente para agarrar a mente. Isso produz o efeito contrário, que é perder o Buda.
    ‘Quando o corpo e a mente obtêm espontaneidade (novamente, apenas veja, ouça, sinta, sem discriminação), o Tao é alcançado e a mente universal é compreendida’.
    Ensinamento de Rinzai:
    ‘Não deixem suas mentes galoparem à doida em busca de algo que nunca perderam e que está mesmo à sua frente (está em você) neste preciso momento’.
    ‘Acordar é a coragem de ‘deixar acontecer’, com o convencimento inabalável de que o movimento natural, espontâneo do indivíduo (tudo que o indivíduo faz), é a mente de Buda’.
    A dedicação ao budismo conceptual (de conceitos, doutrinas, teorias) e a obsessão dos alunos pelas etapas e fins a atingir são tratadas sem piedade pelo Rinzai que, com isso, visa à destruição dessas idéias:
    ‘Porque falo eu aqui? Apenas porque vós, seguidores do Tao, galopais à doida em busca da mente e não sois capazes de parar. Em contrapartida, os antigos avançavam de modo vagaroso, apropriado às circunstâncias (à medida que surgiam). Mas, vós, se não compreenderdes meu ponto de vista... os que tiverem completado as dez fases da sabedoria assemelhar-se-ão a anões, e os que tiverem chegado ao extremo acordar parecerão ter cangas ao redor do pescoço. Essas coisas são como uma latrina suja... ’

    O Zen é particularmente enfático sobre a importância da vida ‘desafetada’ ou ‘natural’:
    ‘Não há lugar no Zen para o uso do esforço. Limitai-vos a ser comuns e nada mais. Aliviai as tripas, carregai água, vesti vossas roupas, comei vossa comida, repousai se cansados. Os ignorantes podem rir-se de mim, mas os sábios compreenderão... Quando as circunstancias se apresentam, não deveis tentar modificá-las (pois não se modificarão; sempre serão aquilo que devem ser). Assim, os vossos habituais modos de sentir, que produzem karma para o sofrimento, tornar-se-ão, por si próprios, o Grande Oceano da Libertação’.
    Ou:
    ‘Fora da mente não há Buda e, dentro, nada existe para ser agarrado. O que é isso que buscais? Por todo lado dizeis que o Tao é para ser praticado. Se alguém o pode praticar, a única coisa que produz é karma’.

    VAZIO E MARAVILHOSO
    Palavras do mais antigo poema Zen:
    ‘O perfeito Caminho é sem dificuldade, salvo no evitar colher e escolher. Só quando deixas de gostar e não gostar, será tudo claramente compreendido. Uma diferença da espessura de um fio de cabelo e eis o céu e a terra separados! Se queres alcançar a verdade nua e crua, não te preocupes com o certo e o errado. O conflito entre o certo e o errado é a doença da mente’ (tudo está acontecendo como tem de acontecer).
    A questão está em não fazer esforço para calar os sentimentos; e cultivar uma branda indiferença (relativamente aos fenômenos e acontecimentos, pois a escolha não é nossa; Krishnamurti: é necessária uma boa dose de humor e de indiferença frente aos acontecimentos da vida). A questão está em ver, para além da ilusão, que aquilo que é agradável ou bom não pode ser separado daquilo que é desagradável ou mau.
    ‘Quando todos reconhecem a beleza como bela, já há fealdade; quando todos reconhecem a bondade como boa, já há maldade (porque já há comparação, interferência do ‘eu’). Ser e não ser originam-se mutuamente; difícil e fácil são mutuamente descobertos; longo e breve são mutuamente contrastados; alto e baixo são mutuamente situados; antes e depois são mutuamente seqüentes’.
    A conseqüência disto é ainda mais forte quando o que foi dito contraria a ilusão mais valiosa da mente humana: a de que, com o tempo, tudo se tornará cada vez melhor.
    O Zen liberta do padrão dualista e de seu ponto de partida aparentemente sombrio; ressalta o absurdo da escolha (como o faz a física quântica), da opinião geral de que a vida pode ir melhorando através de uma constante escolha do que é considerado ‘bom’. A ilusão da melhora surge em momentos de contraste, como quando nos viramos dum lado para outro numa cama dura. A posição é melhor enquanto a sensação de contraste se mantém, mas, em breve, a segunda posição virá assemelhar-se à primeira. Compra-se uma cama mais confortável e, por algum tempo, dorme-se bem. Mas, a solução do problema deixa-nos na consciência um estranho vácuo, em breve preenchido pela sensação de outro intolerável contraste, que até aí não havíamos notado, e tão urgente como o problema da cama dura. Isso porque a sensação de conforto só é mantida em relação à sensação de desconforto, tal como uma imagem só é visível em relação a um fundo contrastante. Bom e mau, agradável e doloroso são tão inseparáveis, tão idênticos na sua diferença, como os dois lados de uma mesma moeda, que:
    ‘Puro é imundo, e imundo é puro. ’
    Assim, a dualidade sujeito e objeto, observador e coisa observada, é tão relativa, tão interligada, tão inseparável como qualquer outra.
    Deixar a ilusão de perseguir o bom não implica em cair na estagnação, uma vez que a situação humana é como a das ‘pulgas numa grelha quente’. Nenhuma alternativa é solução, porque a pulga que salta tem de cair, e a pulga que cai tem de saltar (nunca caímos na estagnação porque sempre estamos agindo como temos de agir, independentemente de nossa vontade ou decisão). Escolher é absurdo porque não há escolha. (Isto é real para todas as tradições místicas e, hoje, para a ciência quântica).
    ... Pergunta ao roshi: ‘Visto-me e como todos os dias. Como posso escapar de ter de vestir roupas e de ter de comer?’ O roshi: ‘Vestindo; comendo’... ‘Não compreendo’... ‘Se não compreendes, veste tua roupa; come teu alimento’. (tudo é o que deve ser, tudo é natural; não há fugas para a verdade; tudo é apenas o que deve ser).
    Inquirido sobre como escapar do calor, o roshi aconselhou a dirigir-se a local onde não há frio nem calor. Ao pedirem que se explicasse, replicou: ‘No verão, suamos; no inverno, trememos’. Ou, como diz um poema:
    ‘Quando faz frio, juntamo-nos ao redor da lareira;
    ‘Quando faz calor, sentamo-nos à sombra dos bambuzais’.
    (Não há como fugir daquilo que é). Não suamos porque faz calor; o suar é o calor. O fogo não espera pelo sol para ser quente; o vento não espera pela lua para ser frio. Em outras palavras: a experiência humana é tão determinada pela natureza da mente e seus sentidos, como pelos objetos externos revelados pela mente. Os homens sentem-se joguetes de sua experiência porque se separam ‘a eles próprios’ das suas mentes, pensando que a natureza da ‘mente-corpo’ é algo que lhes foi imposto sem sua vontade; que não pediram para nascer, que lhes dessem um organismo sensível para ser objeto de prazer e dor alternantes. Mas, o Zen quer que descubramos ‘quem’ é que ‘tem’ essa mente, e ‘quem’ foi que ‘não pediu’ para nascer antes que pai e mãe o concebessem.
    ... A idéia é mais apreensível que a realidade, e o símbolo mais estável que o fato. Daí a noção de um ‘ego’ que ‘tem’ uma mente, de um sujeito separado a quem sucedem experiências não desejadas. O Zen mostra que nosso ‘ego’ é apenas uma idéia, útil se for tomada pelo que é, mas desastrosa se for considerada (como sempre fazemos) como sendo nossa verdadeira natureza (identidade). A inabilidade, não natural, de um certo tipo de consciência do ‘eu’ nasce quando estamos cientes do conflito, ou contraste, entre a idéia que fazemos de nós próprios, e o sentimento concreto imediato de nós próprios.
    Quando já não nos identificamos com a idéia de nós próprios (do ‘eu’), toda relação sujeito-objeto, conhecedor-conhecido, sofre súbita modificação. Torna-se uma relação real, uma unidade relacional em que o sujeito cria o objeto tanto quanto o objeto cria o sujeito. O conhecedor já não se sente independente do conhecido, nem da experiência; o experimentador é a coisa experimentada (o observador é a coisa observada). Por isso, a ansiedade (desejo) de extrair qualquer coisa ‘da’ vida, de conseguir algo ‘através da’ experiência, é absurda.
    A consciência da separação subjetiva baseia-se na incapacidade de perceber a relatividade dos acontecimentos voluntários e involuntários. Essa relatividade é facilmente percebida observando nossa respiração. Leve mudança de ponto de vista faz sentir que ‘eu respiro’ ou que ‘isto me respira’. Sentimos que nossas ações são voluntárias quando vêm de uma decisão nossa, e involuntárias quando não. Mas, para que a decisão fosse voluntária, seria necessário que cada decisão fosse precedida de uma outra decisão de decidir; uma infinita progressão que, felizmente, não sucede. Parece que somos livres para decidir, porque a decisão ‘acontece’ (quando não, ficamos frustrados). Decidimos sem a menor compreensão de como o fazemos. Sinto que estou a decidir tudo que acontece, ou sinto que tudo, inclusive minhas decisões, está apenas a acontecer espontaneamente.

    Sasaki falou:
    ‘Limpei a mente de todos os pensamentos, de todos os desejos, de todas as palavras e repousei na tranqüilidade. Senti-me um pouco estranho como se estivesse preste a tocar algum desconhecido poder... e Zapt! Entrei! Perdi as amarras do corpo físico. Estava dentro de minha pele, é claro, mas senti-me no centro do cosmos. Falei, mas minhas palavras haviam perdido o significado. Vi gente caminhar na minha direção, mas todos eram o mesmo homem; todos eram eu mesmo! Nunca, até então, eu conhecera o mundo. Acreditava ter sido criado, mas agora sei que nunca fui criado; eu sou o cosmos. Nunca existiu qualquer indivíduo chamado Sasaki’.

    Livrar-se da diferença subjetiva entre ‘eu’ (o experimentador) e ‘minha experiência’ é descobrir a verdadeira relação entre eu e o mundo exterior (deste extraio minhas experiências). A identificação do homem com a idéia que ele tem de si próprio dá-lhe falso sentimento de permanência, porque essa idéia, baseada em memórias selecionadas de seu passado, que têm um caráter preservado e estável, é relativamente fixa. A convenção social encoraja essa fixidez porque a própria utilidade dos símbolos depende de sua estabilidade. Encoraja o homem a associar a idéia que faz de si próprio com funções simbólicas e imagens abstratas, dado que estas o ajudam a tornar essa idéia definida e inteligível. Mas, à medida que se identifica com essa idéia fixa, começa a ver a ‘vida’ como algo que passa por ele e o deixa para trás, cada vez mais depressa, à medida que envelhece, que suas idéias se tornam mais rígidas, mais cheias de memórias. Quanto mais tenta agarrar o mundo (a vida), mais o sente como um processo em movimento, impossível de ser agarrado.
    ‘Se observamos a costa quando viajamos de barco, sentimos que a costa se move e o barco está parado. Mas se olhamos para junto do barco, sentimos que este é que se move (tudo, no espaço-tempo, é relativo; nada é absoluto). Quando olhamos o universo em confusão de corpo e mente, temos a impressão enganadora de que nossa mente é constante. Mas se realmente praticamos (o Zen) e voltamos a nós próprios, percebemos o erro. O budismo não considera que inverno se torna primavera, nem que primavera se torna verão’.
    O roshi tenta exprimir aqui a estranha sensação dos momentos sem tempo, que surge quando deixamos de resistir à corrente dos acontecimentos; a calma e auto-suficiência dos sucessivos instantes, quando a mente vai seguindo com eles e não tenta prendê-los. O roshi diz:
    ‘É apenas um grupo de elementos que se juntam para formar este corpo. Quando ele surge, apenas surgem esses elementos. Quando ele cessa, apenas cessam esses elementos. Portanto não digas, ‘Eis que surjo’, ou ‘Eis que cesso’. Assim acontece, também, com nossos pensamentos anteriores, posteriores e intermediários (e experiências): seguem-se uns aos outros sem estarem ligados entre si. Cada um é absolutamente tranqüilo’.

    Ligada à persecução do melhor está a persecução do tempo, do futuro, essa ilusão pela qual somos incapazes de ser felizes sem um prometedor futuro para o ego convencional. O progresso em direção ao bom (ao melhor) é, assim, medido em termos de prolongamento da vida, num esquecimento de que nada é mais relativo do que nosso sentido de dimensão temporal. O medir o valor e o êxito em termos de tempo, e a insistente urgência de ter como certo um futuro prometedor, tornam impossível viver livremente tanto no presente como no prometedor futuro quando este chega, pois estamos sempre na expectativa de um futuro melhor ainda. Mas, nada há senão o presente eterno e, se não podemos viver nele, não podemos viver em tempo algum.
    Esta é uma filosofia, não de olhar para onde se vai, mas de não dar tanta importância ao local aonde se vai (Krishnamurti: veja tudo com certa dose de humor e indiferença). A vida do Zen começa, pois, desiludindo a busca de fins que não existem realmente – o bem sem o mal, a satisfação de um ego que não é mais do que uma idéia, e o amanhã que nunca chega. Todas essas coisas são ilusões de símbolos que julgamos realidades e tentar alcançá-los é como querer atravessar a parede no lugar onde um artista pintou uma porta. Porque todas as idéias de aperfeiçoamento pessoal e de vir a ser ou a alcançar algo no futuro se prendem a uma imagem abstrata de nós próprios. Segui-las é reforçar essa imagem e o ego que é apenas ilusão. Nosso verdadeiro ser já é Buda, logo não necessita de aperfeiçoamento. Poderemos amadurecer no correr do tempo, e ninguém critica o ovo por não ter ainda se tornado uma galinha; nem um porco porque tem pescoço mais curto que a girafa. Daí, quando perguntaram a um roshi o significado do Budismo, ele disse:
    ‘Os ramos floridos crescem naturalmente, uns longos, outros curtos. Olha um comprido; olha um curto!’ (tudo é de acordo com a natureza; tudo, simplesmente, é o que é).
    O ‘mistério’ (trabalho) do Zen, portanto, consiste em desviar nossa atenção do abstrato para o concreto, do convencionado para o real, do ego simbólico para nossa verdadeira natureza. Por isso, os mestres pouco falam do Zen; tentam nos fazer compreender a realidade tal como ela é. Se vemos esse mundo tal como é, vemos que não há nada de bom, nada de mal, nada de curto, nada de comprido, nada de subjetivo, nada de objetivo, nada de justo e nada de injusto, nada de certo e nada de errado. Não existe nenhum ego simbólico a ser esquecido, nem há necessidade de qualquer idéia sobre a realidade concreta a ser aprendida ou a ser recordada.
    ‘Só quando já não tiveres coisas na tua mente, nem tua mente nas coisas, estarás vago e espiritual, vazio e maravilhoso. ’
    Ou:
    ‘Cada ação, cada acontecimento, cada pensamento, surge por si próprio do vazio como, da superfície de um lago tranqüilo, salta, subitamente, um peixe. ’ (Novamente o que Paulo ensinou: ‘não somos donos nem de nossos pensamentos; eles surgem e se vão independentes de nossa vontade’).
    Somente quando percebemos que isto (tudo que sucede, tudo o que pensamos) é tão verdadeiro para o intencional como para o não intencional (espontâneo), é Zen. (Quando pensamos que decidimos, aquilo que chamamos ‘nossa decisão’, como tudo o mais, eventos, pensamentos etc., também surgiu do próprio vazio; saltando como um peixe).

    SENTADO, TRANQÜILO, NADA FAZENDO.
    O Zen nada aprecia mais que a espontaneidade (ou naturalidade), que representa o tom de sinceridade da ação que não é estudada nem planejada.
    ‘O homem soa como um sino rachado quando pensa e age com uma mente dividida em duas’, uma das partes separando-se para agir sobre a outra, para a controlar, julgar, condenar ou enaltecer. Mas a mente, a verdadeira natureza do homem, não pode se dividir em duas. Ela é
    ‘Como uma espada que corta, mas não pode cortar-se a si própria. Como um olho que vê, mas não pode ver-se a si próprio’.
    Essa divisão ilusória é resultante do esforço da mente para ser ela própria e, ao mesmo tempo, ser a idéia que faz dela própria. Para pôr fim à ilusão, a mente deve deixar de agir sobre si própria, sobre a corrente de suas experiências, baseada nessa idéia de si mesma (de que existe um ego).
    ‘Sentado tranqüilamente, nada fazendo,
    A primavera chega e a erva cresce por si própria. ’
    Este ‘por si própria’ é o agir natural (espontâneo) da mente e da natureza, do mundo, como os olhos vêem por si próprios, os ouvidos ouvem por si próprios, e a boca se abre por si própria sem que os dedos a forcem.
    ‘As montanhas azuis são por si próprias montanhas azuis;
    ‘As nuvens brancas são por si próprias nuvens brancas’.
    Ao enfatizar assim a naturalidade (tudo é de acordo com a natureza), o Zen ensina-nos que a ação espontânea é ‘atividade maravilhosa’ porque exclui qualquer idéia de raciocínio, propósito ou deliberação. Por isso, recomenda:
    ‘Ao andares, anda apenas; ao te sentares, senta-te apenas;
    ‘Acima de tudo, não te disperses’,
    porque a qualidade essencial da espontaneidade é a sinceridade da mente que, por não estar dividida, não hesita, pois não escolhe entre ações alternativas. Logo, no Zen, é total a contradição de ‘tentar ser natural’, ou ‘naturalidade deliberada’, ou ‘sinceridade intencional’. Daí fugiu toda espontaneidade, do mesmo modo que, quando o homem pensa com muito cuidado e minúcia acerca da atitude a tomar, não consegue decidir a tempo de agir.
    A mente está sempre dividida, pois sente que não devia fazer o que faz, e que devia fazer o que não faz; que não devia ser o que é, e que devia ser o que não é. Mais ainda, o esforço para estar sempre ‘bem’ ou ‘feliz’ é igual a tentar manter a temperatura ambiente sempre a mesma, tornando o limite inferior sempre igual ao superior, o que é impossível.
    Essa identificação da mente com a imagem que faz de si própria é paralisante, pois é uma imagem fixa de algo que está sempre em movimento. Apegarmo-nos a ela é viver em constante contradição e conflito. Portanto: ‘ao te sentares, senta-te apenas... ’, não planeje, seja espontâneo. Por isso o Zen parece tantas vezes tomar o partido da ação contra a reflexão e por isso os roshi respondem instantaneamente e fora de toda premeditação às perguntas que lhes fazem. Assim, quando perguntaram a um roshi qual era o maior segredo do budismo, ele, sem hesitar, respondeu: ‘Pudim de maçã!’.
    A tentativa de agir e ao mesmo tempo pensar sobre essa ação vem da identificação da mente com a representação que dela ela mesma faz. É como dizer: ‘Esta verdade é mentira’. É como, se estou me divertindo, me examinar para saber se estou mesmo me divertindo. Não contente por me sentir feliz, quero me sentir sentindo-me feliz, como para me certificar de que nada estou perdendo. Devemos nos entregar à ação sem olhar as conseqüências. Esta ação pode ser certa ou errada de acordo com os padrões convencionais. Mas, a verdade é que não podemos entender esta questão sem nos apercebermos de que não existe nenhuma outra forma de agir (a escolha não é nossa e, embora não pareça, tudo é espontâneo. Como diz o Zen: ‘Se compreendes, as coisas são assim; se não compreendes, as coisas são assim’).
    O condicionamento social predispõe a identificação da mente com a idéia fixa que ele faz de si própria, do ‘eu’, como um meio de autocontrole, e daí resulta o homem pensar-se de si próprio como ‘eu’, o ego. O centro de gravidade mental vai da mente espontânea original para a imagem do ego. Depois disso, o próprio centro de nossa vida psíquica se identifica com o mecanismo de autocontrole. Torna-se então quase impossível discernir como poderá o ‘eu’ libertar o ‘eu-mesmo’, pois sou precisamente o meu esforço habitual para me agarrar a mim próprio. Todas as ações mentais são, então, intencionais, afetadas, insinceras.
    Não posso ser intencionalmente intencional ou propositadamente espontâneo. Logo que se torna importante para mim o ser espontâneo, cresce a minha intenção de o ser. Mas, aí não há espontaneidade, pois há a intenção de ser espontâneo.
    Subitamente compreendo que o meu querer é espontâneo, que meu próprio controlador – o ego – nasce do meu próprio não-controlador ou natural, isto é, tudo é espontâneo. Então, todas as maquinações do meu ego ficam em nada. Todas as maquinações não resolvem nada; são apenas esforços inúteis, pois sempre faço o que faria sem quaisquer esforços (isto é, sempre faço aquilo que tem de ser feito, queira eu ou não, mesmo que minha intenção seja outra). Verifico que é impossível não ser espontâneo porque aquilo que não posso deixar de fazer, faço espontaneamente. Mas se, ao mesmo tempo, estou tentando tentar controlá-lo, interpreto-o como uma compulsão. Então, com a compreensão daquilo que está exposto acima, como disse o roshi:
    ‘Neste momento nada te resta senão dar uma boa gargalhada’. (Porque tudo que fazemos, tudo que pensamos e tudo que pensamos que decidimos tinha de ser assim mesmo; tudo é espontâneo, como deve ser, embora nos pareça que não é assim).
    Com essa compreensão a qualidade da consciência fica inteiramente modificada e ‘entro’ num mundo novo onde vejo, afinal, que sempre vivi. Assim que reconheço que minha ação voluntária acontece espontaneamente ‘por si própria’, tal como respirar, ouvir, sentir, estou finalmente livre da contradição de tentar ser espontâneo. E não há aqui nenhuma contradição porque ‘tentar’ é, também, ‘espontaneidade’.
    A compreensão de que tanto o voluntário quanto o involuntário da mente são, de igual modo, espontâneos, põe fim imediato ao dualismo entre mente e mundo, conhecedor e conhecido, observador e coisa observada. O mundo novo em que me encontro adquire uma extraordinária transparência ou ausência de barreiras, fazendo com que se sinta, de algum modo, o espaço vazio em que tudo está a acontecer. Então se compreende que: ‘todos os seres estão no nirvana desde o inicio, que todo dualismo é falsamente imaginado’, ‘a mente comum é o Tao’. Por isso:
    ‘De um só golpe esqueci tudo o que conhecia!
    ‘De nada serve a disciplina artificial,
    ‘Pois, faça o que fizer, abro o antigo caminho’ (fazemos sempre exatamente o que tem de ser feito; não escolhemos, não decidimos).
    Deixamos de tentar ser espontâneos ao percebermos que é desnecessário tentar, e então o satori pode acontecer (tudo é espontâneo).
    Os roshi muitas vezes provocam o despertar por meio de um ‘truque’. Não respondem a uma pergunta e, quando quem os interroga se volta para partir, chamam-no subitamente pelo nome. O discípulo responde muito naturalmente ‘Sim?’ E então o mestre exclama ‘Aí está!’ (isso é espontaneidade).
    Isso parece pura insensatez mas, segundo o budismo, a própria realidade não tem sentido, visto que não é um sinal a apontar para algo além dela (já que nada existe além dela). Chegar à realidade é entrar numa vida absolutamente desprovida de finalidade. Para o zen e o taoísmo, essa é precisamente a vida do universo, completa em cada momento e não necessita justificar a si própria nem procura nenhum mais além. Zenrin:
    ‘Se não acreditas, olha para Setembro, olha para Outubro!
    ‘As folhas amarelas caindo, caindo, a encher o rio e a montanha. ’ (isto é, tudo está de acordo com a natureza; nada deve ser forçado, pois não há o que forçar; tudo já é o que é e nunca podemos interferir).
    Para o Zen, a vida sem finalidade nada tem de deprimente. Pelo contrário, sugere a liberdade das nuvens e dos rios da montanha correndo sem destino, e as flores dos desfiladeiros inacessíveis, belas mesmo que ninguém as veja, e o vai e vem do o mar lavando a areia, sem nenhum propósito.
    ‘Se és um verdadeiro homem, podes perfeitamente tirar o boi do
    ‘agricultor, ou arrancar a comida da boca de um esfomeado’.
    Isto significa apenas que o Zen está além de uma ética cujas sanções se encontram, não na própria realidade, mas na convenção dos seres humanos. Quando tentamos universalizar (generalizar, tornar comum a todos), o ponto de vista de uma ética total, absoluta, isso torna a existência impossível, pois não conseguimos viver um dia sequer sem destruir a vida de alguma criatura.
    Satori é a mente funcionando livre, sem estorvos, sem se dispersar entre alternativas, sem ter que parar para deliberar e ‘escolher’ (afinal, ninguém escolhe). A resposta a qualquer situação é tão instantânea (e espontânea) quanto o som que sai das mãos quando batemos palmas, ou como as faíscas de um isqueiro ao ser acionado.
    Assim, quando um monge pára ante o inesperado da pergunta para, talvez, se lembrar para que lado gira a água, o mestre grita: ‘Não penses! Age! Assim...!’... e gira a mão no ar.
    Em outras palavras, nosso organismo executa as atividades por mais maravilhosamente complexas que sejam, sem hesitação e sem deliberação (espontaneamente). O próprio pensamento se funda sobre todo o seu sistema de funcionamento espontâneo; por isso não há alternativa senão confiarmos completamente em nós próprios (pois sempre fazemos o que deve ser feito e tudo acontece como deve acontecer).
    Libertamo-nos da contradição de ‘tentar ser espontâneo’ quando compreendemos que o ‘tentar’ é, ele mesmo, espontâneo.
    O Zen não confunde espiritualidade com o pensar em Deus enquanto descasca batatas. Sua espiritualidade é, precisamente, descascar batatas (com total atenção ao que se está fazendo. Assim, quando lavares louça, apenas laves louça; quando chupares laranja, apenas chupes laranja. Nunca te disperses!).

    ‘Quando chega o momento de te vestires, veste as tuas roupas.
    ‘Quando tiveres que andar, então anda.
    ‘Quando tiveres que sentar, então senta-te.
    ‘Não mantenhas na tua mente um único pensamento relativo à busca do estado de Buda.
    ‘Os Budas são pessoas sem esses artifi cialismos.
    ‘O que falta à tua conduta neste preciso momento?
    ‘Que poderás acrescentar ao que já és?’
    Por isto, diz um poema Zenrin:
    ‘Nada se pode comparar a vestir roupas e comer comida.
    ‘Fora disso não há Budas. ’

    ZAZEN
    A prática do Zen não é verdadeira enquanto se tiver um fim (um objetivo) em vista. O não haver um fim em vista é que leva ao despertar para a vida sem finalidade do eterno agora. O Zazen é a prática para se ver diretamente a realidade. É, simplesmente, uma atenção calma, sem julgamentos, sem comentários, ao que quer que aconteça aqui e agora. Essa atenção é acompanhada pela mais viva sensação de ‘não-diferença’ entre o praticante e o mundo exterior, mente e conteúdo, - os vários sons, formas e outras impressões do ambiente que nos rodeia. Naturalmente essa sensação não surge por desejarmos adquiri-la. Vem por si própria quando estamos sentados e atentos, sem qualquer propósito em mente, nem mesmo o propósito de nos libertarmos do propósito.
    ‘Procuramos, voltamos a procurar muitas vezes, mas nada conseguimos. Afinal, depois desistimos, e a resposta vem por si mesma’.
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    Citação de Osho:
    ‘Você só encontrará Deus, quando você se sentir tão sedento ou tão faminto (de Deus) que fatalmente morrerá se não encontrar uma gota d’água ou uma migalha de pão.

    Leia com atenção, analise profundamente, tente compreender.
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      Data/hora atual: Sex Abr 20, 2018 1:53 pm