Filosofia Oriental e Espiritualismo Prático

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    Viviane Mosé

    Mensagem  Convidad em Seg Jun 13, 2011 8:58 am

    Viviane Mosé


    Vida/tempo

    Quem tem olhos pra ver o tempo?
    Soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele
    Soprando sulcos?
    O tempo andou riscando meu rosto
    Com uma navalha fina.
    Sem raiva nem rancor

    O tempo riscou meu rosto com calma.
    Eu parei de lutar contra o tempo. Ando exercendo instante.
    Acho que ganhei presença.
    Acho que a vida anda passando a mão em mim.
    Acho que a vida anda passando.
    Acho que a vida anda. Em mim a vida anda.
    Acho que há vida em mim. A vida em mim anda passando.
    Acho que a vida anda passando a mão em mim

    Por falar em sexo quem anda me comendo
    É o tempo. Na verdade faz tempo, mas eu escondia
    Porque ele me pegava à força, e por trás.
    Um dia resolvi encará-lo de frente e disse: Tempo, se você tem que me comer
    Que seja com o meu consentimento. E me olhando nos olhos.
    Acho que ganhei o tempo. De lá pra cá ele tem sido bom comigo.
    Dizem que ando até remoçando



    Receita pra lavar palavra suja

    Mergulhar a palavra suja em água sanitária,
    Depois de dois dias de molho, quarar ao sol do meio dia.
    Algumas palavras quando alvejadas ao sol
    adquirem consistência de certeza,
    por exemplo a palavra vida.

    Existem outras e a palavra amor é uma delas
    que são muito encardidas e desgastadas pelo uso,
    o que recomenda esfregar e bater insistentemente na pedra,
    depois enxaguar em água corrente.
    São poucas as que ainda permanecem sujas
    depois de submetidas a esses cuidados
    mas existem aquelas.

    Dizem que limão e sal tiram as manchas mais difíceis e nada.
    Todas as tentativas de lavar a piedade foram sempre em vão.
    Mas nunca vi palavra tão suja
    como a palavra perda.
    Perda e morte na medida em que são alvejadas,
    soltam um líquido corrosivo
    —que atende pelo nome de amargura—
    capaz de esvaziar o vigor da língua.
    Nesse caso o aconselhado é mantê-las sempre de molho
    em um amaciante de boa qualidade.

    Agora se o que você quer
    é somente aliviar as palavras do uso diário,
    pode usar simplesmente sabão em pó e máquina de lavar.
    O perigo aqui é misturar palavras que mancham
    no contato umas com as outras.

    A culpa, por exemplo, mancha tudo que encontra
    e deve ser sempre clareada sozinha.
    Uma mistura pouco aconselhada é amizade e desejo,
    já que desejo sendo uma palavra intensa, quase agressiva,
    pode, o que não é inevitável,
    esgarçar a força delicada da palavra amizade.

    Já a palavra força cai bem em qualquer mistura.
    Outro cuidado importante é não lavar demais as palavras
    sob o risco de perderem o sentido.
    A sujeirinha cotidiana quando não é excessiva
    produz uma oleosidade que conserva a cor
    e a intensidade dos sons.

    Muito valioso na arte de lavar palavras
    é saber reconhecer uma palavra limpa.
    Para isso conviva com a palavra durante alguns dias.
    Deixe que se misture em seus gestos
    que passeie pelas expressões dos seus sentidos.

    Á noite, permita que se deite,
    não a seu lado, mas sobre seu corpo.
    Enquanto você dorme
    a palavra plantada em sua carne
    prolifera em toda sua possibilidade.
    Se puder suportar a convivência
    até não mais perceber a presença dela,
    então você tem uma palavra limpa.
    Uma palavra limpa é uma palavra possível.



    Toda Palavra

    Procuro uma palavra que me salve
    Pode ser uma palavra verbo
    Uma palavra vespa, uma palavra casta.
    Pode ser uma palavra dura. Sem carinho.
    Ou palavra muda,
    molhada de suor no esforço da terra não lavrada.
    Não ligo se ela vem suja, mal lavada.
    Procuro uma coisa qualquer que saia soada do nada.
    Eu imploro pelos verbos que tanto humilhei
    e reconsidero minha posição em relação aos adjetivos.
    Penso em quanta fadiga me dava
    o excesso de frases desalinhadas em meu ouvido.
    Hoje imploro uma fala escrita,
    não pode ser cantada.
    Preciso de uma palavra letra
    grifada grafia no papel.
    Uma palavra como um porto
    um mar um prado
    um campo minado um contorno
    carrossel cavalo pente quebrado véu
    mariscos muralhas manivelas navalhas.
    Eu preciso do escarcéu soletrado
    Preciso daquilo que havia negado
    E mesmo tendo medo de algumas palavras
    preciso da palavra medo como preciso da palavra morte
    que é uma palavra triste.
    Toda palavra deve ser anunciada e ouvida.
    Nunca mais o desprezo por coisas mal ditas.
    Toda palavra é bem dita e bem vinda.

    Rios

    Rios, quando ainda são rios,
    Conservam vegetação nas margens.
    Córregos são águas geralmente claras
    Que correm rasas entre as pedras.

    Algumas vezes árvores chegam a cobrir um rio por inteiro:
    Suas copas vão tecendo um véu verde sobre as águas
    (em geral muito limpas) que correm.

    As margens de um rio são plantas e terra molhada.
    Terra e água em convivência pacífica.
    Que não é lama, é terra e água,
    Em sua diferença.

    O leito se sabe leito daquele fluxo líquido inserido no chão.
    Eu poderia chorar de coisas assim:
    Corre um rio de minha boca corre um rio de minhas mãos.
    Dos meus olhos corre um rio.

    Na verdade sofro de excessos, que me dão certo vocabulário
    Como derramar, escorrer, atravessar.
    Tenho a impressão de que tudo vaza em sobras.
    Tenho dificuldade em caber.

    Pra caber mais derramo por nada derramo sem motivo.
    Vou acalmar meu excesso pensei
    Ministrando doses diárias de barcos ancorados ao sol,
    Rodeados por pequenos pássaros em busca de restos de peixe.

    Águas se lançando sobre as pedras e um vento que parece vivo,
    Como se tivesse a intenção de às vezes fazer agrados
    Em minha pele.

    Meu rosto tem muita simpatia por ventos,
    Reconhece certos humores próprios a vento.
    Gosto de coisas que se movem.
    Por isso aprecio rios e não sou tanto assim apegada a mares.
    E árvores.

    Se bem que tenho enorme ternura por bois
    Fincados no pasto como palavras no papel.
    Palavras são estacas fincadas ao chão.
    Pedras onde piso nessa imensa correnteza que atravesso.

      Data/hora atual: Ter Out 17, 2017 3:52 am