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    O MOVIMENTO DO EGO - Krishnamurti

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    O MOVIMENTO DO EGO - Krishnamurti

    Mensagem  Convidad em Ter Jun 14, 2011 10:06 am

    O MOVIMENTO DO EGO

    O que é esse “eu”? É possível, de alguma
    maneira, libertar-se da atividade centrada no "eu"? Há um
    "eu" real separado da imagem criada pelo próprio "eu"?
    .



    KRISHNAMURTI: O que
    entendemos por "eu"? Se você perguntar a alguém o que é
    o "eu", ele diria "São todos os meus sentidos, meus
    sentimentos, minha imaginação, minhas exigências românticas,
    todas as minhas posses, um marido, uma esposa, minhas qualidades,
    minhas lutas, conquistas, ambições, minhas aspirações, minha
    infelicidade, minhas alegrias" – TUDO ISSO seria o "eu".


    Você pode acrescentar mais palavras, mas a
    essência dele é o centro, o "eu", meus IMPULSOS
    (deslocamento de um conjunto de sensações para um outro conjunto de
    sensações projetado delas próprias como realizações): -
    "Sinto-me impelido a ir a Índia para encontrar a verdade"
    - e assim por diante. A partir desse centro, ocorre toda ação;
    todas as nossas aspirações, nossas ambições, desavenças, nossas
    desacordos, nossas opiniões, julgamentos, experiências, estão
    centrados nisso. Esse centro não é apenas o "eu"
    consciente agindo exteriormente (nos movimentos corporais voluntários
    e involuntários; das reações comportamentais comuns do cotidiano
    que fere a imagem que temos de nós de importância, valor, diretos,
    deveres etc.), mas também a profunda consciência interior que não
    é aberta e evidente; ele é TODOS os diferentes níveis de
    consciência.




    É possível libertar-se desse centro?


    KRISHNAMURTI:Por
    que nós (que somos o movimento desse centro) queremos libertar dele?
    Seria por¬que o centro é causa de divisão (maléficos, dores,
    sofrimentos, mágoas, ressentimentos)?


    Isto é, o "eu" é o elemento ativo que
    está agindo o tempo todo; é o mesmo "eu" (um único
    movimento de relações interligado milenarmente perpetuizado em
    reações de causas e efeitos, fracionado em seu conteúdo mental
    único de aparência particularizada em cada ser humano) com
    diferentes nomes, com uma pele de cor diferente, com uma tarefa
    diferente, com uma posição diferente na hierarquia da estrutura
    social - você é o Senhor Fulano de Tal, outra pessoa é um criado -
    é o mesmo "eu" dividindo-se social, econômica e
    religiosamente - em todas essas diferentes categorias.

    Onde há essa divisão deve haver conflito - o
    hindu que se opõe ao muçulmano, ao judeu, ao árabe, ao americano,
    ao inglês, ao francês. Isso é óbvio, fisicamente, e tem causado
    guerras terríveis, grande aflição, brutalidade e violência. O
    "eu" IDENTIFICA-SE (se expande buscando continuidade na
    busca de satisfação e prazer na segurança ideológica de ser algo
    que imagina) com um ideal - nobre ou ignóbil - e luta por esse
    ideal.


    Contudo, trata-se ainda do "caminho do ego"!

    As pessoas vão a Índia em busca de
    espiritualidade; vestem diferentes fantasias, mas mudaram somente de
    aparência, de roupas; elas são, essencialmente, o "eu"
    agindo, lutando TODO O TEMPO, esforçando-se, agarrando, negando, e
    estão profundamente apegadas as suas experiências, idéias,
    opiniões e desejos. E, a medida que se vive, observa-se que esse
    centro, esse "eu", é a essência de todos os problemas.
    Observa-se, também, que ele é a essência de todo prazer, medo e
    tristeza.





    "Como escapar desse centro para ser
    REALMENTE livre - de forma absoluta e não relativa?" É
    bastante simples ser relativamente livre; pode-se ser um tanto
    desprendido, um tanto preocupado com o bem-estar social, com as
    dificuldades dos outros, mas o centro (gerenciador de ação) está
    sempre lá, brutal, mordendo duramente.


    É possível LIVRAR-SE TOTALMENTE desse centro?



    KRISHNAMURTI:
    Antes de mais nada, vejam que, quanto maior o esforço feito
    para libertar-se desse centro, mais a própria luta o fortalece, -
    FORTALECE (esse movimento auto-identificado expansionista para ser,
    ou ter alguma coisa) O "EU". Para aqueles que se desgastam
    em meditações de várias espécies, tentando impor (projeções)
    algo a si mesmos, o "eu", que SE IDENTIFICA com esse
    esforço, é capturado por ele e diz: "Eu consegui", mas
    esse "eu" AINDA é o centro. Para libertar-se, é preciso
    que NÃO haja esforço (volição), o que não significa fazer o que
    se quer, pois isso (qualquer coisa que se faça) é AINDA o movimento
    do "eu".


    Portanto, o que é que se tem de fazer?


    KRISHNAMURTI:Se
    você NÃO deve se esforçar porque acredita (sabe de fato) que,
    quanto maior o esforço feito, maior será a resistência do centro,
    então (nada faça, apenas observe o movimento de forma descontinua
    sem nada acumular do observado), o que se deve fazer? O consulente
    pergunta: Há um verdadeiro "eu", separa¬do do "eu"
    criado pelo pensamento através de suas imagens?


    Muitas pessoas perguntam isso!


    Os hindus dizem que há um princípio mais alto,
    que é o "eu".
    Nós imaginamos também que existe um
    "eu" (imortal, eterno) verdadeiro, separado do "eu"
    (movimento de coisas mortas). Vocês todos, estou certo, “sentem”
    (projeção prazerosa que gostaríamos de fosse real, verdadeira) que
    há algo além desse (movimento para vir a ser ou a ter alguma coisa)
    "eu", algo que tem sido chamado (imortalizado e permanente)
    de o "eu mais elevado", o "sublime ou o supremo eu".


    No momento em que usamos a palavra "Eu",
    ou usamos qualquer palavra para descrever aquilo que (imaginamos)
    está além do "eu", o "eu" (imortal e permanente
    que imaginamos, projetamos), trata-se ainda do "eu"
    (simples movimento de coisas mortas – memórias, conhecimentos
    arquivados - para vir a ser ou ter algo).




    É possível libertar-se do "eu"? -
    sem tornar-se um vegetal, sem tornar-se distraído, de certo modo
    louco?


    Em outras palavras: é possível ser totalmente
    livre de apegos? - o que é um dos atributos, uma das qualidades do
    "eu".


    KRISHNAMURTI:As
    pessoas são apegadas a própria reputação, ao próprio nome, as
    próprias experiências. São apegadas ao que dizem. Se você quer
    realmente libertar-se do "eu", isso significa ausência de
    laços; o que não quer dizer que você se torne desinteressado,
    indiferente, insensível, que se feche em si próprio, pois TUDO ISSO
    (ainda) é uma outra atividade do "eu". Antes, ele estava
    apegado; agora, ele diz: "Eu não me apegarei". Esse é
    ainda um movimento do "eu".


    Quando você está REALMENTE desapegado, mas SEM
    esforço, de uma forma profunda, básica, então, desse profundo
    senso de desapego nasce à responsabilidade (seriedade). Não
    responsabilidade por sua esposa, por seus filhos, mas o profundo
    senso de responsabilidade (em todas as relações da vida –
    natureza, coisas, pessoas, idéias etc. – através da observação
    descontínua, sem interferência do passado, nada arquivando como
    memória).


    Você esta disposto a isso? Esta é a questão!


    Podemos discutir eternamente, usar palavras
    diferentes, mas quando chega a hora de por isso em prática (sentir a
    responsabilidade), de agir, parece que NÃO QUEREMOS fazê-lo;
    PREFERIMOS CONTINUAR como somos, (temos medo, receio de abandonar o
    conhecido morto que permanentemente trazemos para o presente vivo)
    com o “status quo” ligeiramente modificado, mas levando adiante
    (dando continuidade ao movimento) nossos conflitos.

    Libertar-se da própria experiência, do próprio
    conhecimento, da própria percepção acumulada - é possível se
    você se empenhar (seriedade sem esforço, de forma descontinua no
    cotidiano comum de nossas vidas) energicamente. E não toma tempo
    (não é um exercício bobo que temos que nos observar
    descontinuamente – é a vida comum normal de cada dia de qualquer
    pessoa em toda e qualquer atividade – são “flashs”, “insight”
    em micronéssimos de fração de segundos em nosso relacionamento,
    onde a consciência livre do conteúdo morto observa a relação -
    percebe-se em movimento e não registra na memória). Essa é uma de
    nossas desculpas: precisamos ter tempo para sermos livres.


    Quando você percebe que um dos maiores fatores do
    “eu” é o apego, e observa o que ele faz no mundo (guerras,
    misérias, corrupção, violência) e ao seu relacionamento com os
    outros – desavenças, separação, toda a fealdade de um
    relacionamento – se você PERCEBE A VERDADE sobre o apego, então
    você estará LIVRE dele (é a verdade que liberta). Sua própria
    percepção o libertará.


    Você está disposto (a morrer para todas as
    gostosas e viciadas ilusões milenares) a isso?



    Brockwood Park, Inglaterra, Ojaí, Califórnia e
    Saanen, Suíça agosto 1979 à setembro 1980 – págs.9/12 do livro
    “PERGUNTAS E RESPOSTAS” – Cultrix 1986 – tradução de Enid
    Abreu Dobranszky.

      Data/hora atual: Sex Set 22, 2017 11:40 pm