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    Religião: manancial de força ou de fraqueza? O Divino Direito de Ser Protegido

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    Monstrinho

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    Data de inscrição : 22/05/2011

    Religião: manancial de força ou de fraqueza? O Divino Direito de Ser Protegido

    Mensagem  Monstrinho em Dom Jul 10, 2011 6:32 pm

    Olá,

    Leiam, comentem, critiquem e reflitam sobre o artigo abaixo:


    Religião - Manancial de força ou de fraqueza?

    Palavras-chave: O divino direito de ser protegido; Filosofia Nietzchena; Psicanálise; Psicologia Existencial-humanista Nietzscheana; Crítica de Nietzsche às religiões e à moral; Psicoterapia Existencial-humanista; Auto-conhecimento; Liberdade; O homem à procura de si mesmo; o problema da proteção paterna e das autoridades constituídas

    Em qualquer discussão sobre a integração de religião e personalidade , o importante não é saber se a própria religião contribui para a saúde ou a neurose, e sim “que espécie” de religião e como é usada. Freud estava errado ao sustentar que religião é por si uma neurose compulsiva. Algumas são, outras não. Qualquer setor da vida pode ser utilizado como neurose compulsiva: a filosofia pode ser uma fuga da realidade para um “sistema” harmonioso, proteção da ansiedade e das desarmonias do dia-a-dia, ou pode ser um corajoso esforço para compreender melhor a realidade. A ciência pode ser utilizada como fé rígida e dogmática, por meio da qual a pessoa foge à insegurança emocional e às dúvidas, ou pode ser uma busca sincera de novas verdades. Desde que a fé na ciência tem sido mais aceitável nos círculos intelectuais de nossa sociedade e está, portanto, menos apta a ser questionada, é bem possível que em nossos dias esta fé represente com mais freqüência o papel de fuga compulsiva das incertezas do que a própria religião. Freud, contudo, estava tecnicamente certo ao fazer a pergunta correta em relação à religião: ela aumentará a dependência e manterá o indivíduo infantilizado?

    Por outro lado, os que afirmam tranqüilamente que a religião contribui para a saúde mental não estão corretos. Alguns sim, outros decididamente não. Todas estas declarações generalizadas nos poupam à questão muito mais difícil de penetrar o significado íntimo das atitudes religiosas e avaliá-las, não como crenças teóricas, mas como aspectos efetivos da relação orgânica da pessoa com sua vida.

    As questões que propomos são: a religião de determinado indivíduo serve para quebrar-lhe a vontade, mantê-lo em plano infantil de desenvolvimento, capacitando-o a evitar a ansiedade causada pela liberdade e responsabilidade pessoal? Ou serve de base para a afirmação de seu valor ou dignidade, proporcionando-lhe o fundamento para uma corajosa aceitação de suas limitações e da ansiedade normal, ajudando-o a desenvolver suas aptidões, responsabilidade, força e capacidade de amar aos seus semelhantes? O primeiro ponto a ser considerado, ao responder a estas perguntas, é a relação entre religião e dependência.

    Uma senhora e sua filha haviam combinado, quando a última era bem pequena, que a vida desta seria sempre orientada pela vontade de Deus. E a vontade de Deus, na opinião das duas, seria revelada à filha através das preces da mãe. A gente estremece ao pensar até que ponto isso exporia a jovem ao domínio materno, em cada gesto ou pensamento! Sua capacidade de decisão não poderia deixar de ficar abafada, foi o que ela penosamente descobriu quando, perto dos trinta anos, se viu diante de um insolúvel dilema: não conseguia assumir com autonomia a decisão de casar-se. Este exemplo parecerá exagerado, uma vez que mãe e filha pertenciam a uma seita evangélica conservadora e a história não é recoberta de sofisticadas racionalizações. Mas demonstra que, quando uma pessoa se considera porta-voz ou associado de Deus, como fazia a mãe, não há limites para os direitos que se arroga sobre os outros.

    Essa maneira de usar da religião manifesta-se com nitidez e freqüência quando a pessoa, durante a análise, está lutando para conquistar alguma liberdade, fugindo ao controle paterno. Os pais, muitas vezes, com diferentes graus de sutileza, afirmam ser dever religioso do jovem permanecer sob sua direção, que é na verdade a “vontade de Deus”. Nas cartas que as pessoas analisadas recebem às vezes dos pais, estes citam, naturalmente, passagens da Bíblia como a que manda “honrar pai mãe”, em lugar do trecho do Novo Testamento, onde Jesus declara que “o inimigo do homem será sua família”.

    A maioria dos pais insiste verbalmente, é claro, em que deseja somente que o filho realize as suas potencialidades. Muitas vezes não percebem a necessidade inconsciente de continuar agarrados aos mais jovens. Mas o fato de comportarem-se como se a realização do filho ou da filha só pudesse ser alcançada caso permanecesse sob seu controle revela algo muito diferente de suas intenções conscientes. A libertação dos filhos provoca às vezes uma profunda ansiedade, que revela o quanto é difícil para eles, em nossa sociedade, acreditar de fato nas potencialidades da criança (talvez por ser tão difícil crerem em suas próprias potencialidades), e também como é forte a tendência de toda autoridade constituída a manter seu poder, mesmo ao preço da submissão de outrem.

    Os conflitos tornam-se mais complexos porque o jovem em luta pela autonomia fica muitas vezes imbuído de um profundo sentimento culposo, caso não obedeça aos preceitos paternos. E, em geral, já está combatendo no íntimo considerável ansiedade e sentimento de culpa nos esforços para libertar-se. É muitas vezes nesse estágio que as pessoas têm sonhos nos quais, como Orestes, se sentem ao mesmo tempo culpadas e inocentes e, no entanto, são forçadas a continuar. Uma pessoa nestas circunstâncias sonhou que fora condenada pelo Senador McCarthy, embora soubesse que na verdade era inocente.

    O problema da sujeição ao poder de outrem é reforçado, naturalmente, por desejos infantis no sentido de que “alguém cuide dele”. Assim, existem tendências para entregar-se a quem o domina. Cerca de metade do meu trabalho psicoterapêutico, nos últimos dez anos, tem sido feito com pessoas de background especificamente religioso, ou de profissão religiosa, e cerca de metade com pessoas sem qualquer formação ou interesse religioso. Anotei algumas impressões que, embora devam ser recebidas com cautela, podem talvez ser de ajuda para o esclarecimento de algum efeito psicológico da educação religiosa em nossa sociedade. Cito-a por duas razões. Primeiro, porque podem ser úteis aos leitores de tradição religiosa, preocupados em evitar o ângulo da religião (assim como de qualquer outro aspecto cultural) que conduza a armadilhas neuróticas. Segundo, porque tais impressões podem ser úteis aos leitores sem qualquer tradição religiosa, mas que, como um número crescente de pessoas de sensibilidade, se preocupam hoje em distinguir quais os aspectos da religião que são de ajuda na descoberta dos valores pessoais e quais os que para isso não contribuem.

    Minhas impressões são as seguintes: as pessoas de formação religiosa demonstram, a princípio, zelo maior que o das outras para reformar a si mesmas e a sua vida. Mas, em seguida, inclinam-se a uma atitude que eu chamaria “o direito divino de ser cuidado”. As duas atitutes são naturalmente contraditórias e paralelas aos efeitos também contraditórios da religião que já discutimos e discutiremos ainda neste capítulo. A primeira atitude – o vivo interesse por resolver os próprios problemas – não necessita comentários; é uma função da fé no significado e no valor da vida, é contribuição construtiva de uma religião amadurecida e, conforme apontaremos adiante, tem em geral influência dinâmica sobre a terapia.

    Mas a atitude do “direito divino de ser cuidado” é totalmente diferente. Constitui um dos maiores bloqueios à evolução para a maturidade, tanto em terapia, como na vida em geral. Dificilmente tais pessoas percebem que essa exigência em cuidade delas é um problema a ser analisado e vencido, e muitas vezes reagem com hostilidade e a sensação de terem sido “defraudadas” quando esse “direito” não é atendido. É claro que ouviram “Deus cuidará de você”, desde que eram pequenos e cantavam hinos na escola dominical, até encontrarem a forma vulgarizada da mesma idéia em diferentes filmes. Mas, em nível mais profundo, a exigência de que se cuide deles – sobretudo porque a hostilidade surge tão rapidamente quando há frustração – é uma função de algo mais íntimo e creio que sua dinâmica advém do fato de que essas pessoas tiveram tanto a que renunciar. Cederam aos pais a capacidade e o direito de fazer julgamentos morais e naturalmente a outra parte do contrato tácito é terem então o direito de depender das forças e do juízo paternos, como o escravo depende do senhor. De maneira que se sentem defraudadas caso os pais – ou mais provalvelmente um substituto dos pais, como o analista ou Deus – não lhes dispense atenções especiais.

    Aprenderam que felicidade e sucesso resultariam de seu “bom comportamento”, o último em geral interpretado pela obediência. Mas ser simplesmente obediente, conforme demonstramos acima, compromete o desenvolvimento da percepção ética do indivíduo e sua força interior. Obedecendo às exigências externas durante um longo período de tempo, perde sua verdadeira capacidade para fazer uma opção responsável, segundo a ética. Por estranho que pareça, fica diminuída a sua aptidão para fazer o bem e alcançar a alegria resultante. E uma vez que a felicidade não é uma recompensa pela virtude, conforme observou Spinoza, e sim a própria virtude, a pessoa que renuncia à sua autonomia ética renuncia também, no mesmo grau, à capacidade de alcançar a virtude e a felicidade. Não é surpreendente que se sinta ressentida.

    Examinaremos mas concretamente aquilo que a que foram forçados a renunciar ao verificarmos de que modo a “moral da obediência” e a ênfase em “ser bom submetendo-se” conquistou seu lugar na cultura moderna. Assume sua forma atual graças sobretudo aos padrões copiados ao desenvolvimento do industrialismo e capitalismo nos últimos quatro séculos. A subordinação à uniformidade mecânica, a organização da vida segundo as exigências do trabalho e da economia, trouxeram, de fato, resultado financeiro e, portanto, social na maior parte do período moderno. É possível argumentar, e convencer, que a salvação é resultado da obediência, pois se a pessoa obedecer às exigências de trabalho da sociedade industrial geralmente acumula riqueza. Quem leu sobre o talento para negócios dos primeiros quakers e puritanos, por exemplo, sabe o quanto as atitudes em relação ao dinheiro e à moral andaram juntas. O “dólar quaker” era um consolo concreto pelo grande ressentimento das classes médias decorrente das privações emocionais sofridas através do sistema da obediência.

    Mas, conforme observamos em capítulo anterior, os tempos mudam e em nossos dias “deitar cedo e cedo levantar-se” pode tornar uma pessoa saudável, mas não lhe dá garantia de riqueza e sabedoria. Os preceitos de Benjamin Franklin, diligência e fidelidade diária à rotina de trabalho, não mais garantem o sucesso.

    Além do mais, a pessoa religiosa, especialmente quando ministro, ou de qualquer modo dedicada a um trabalho religioso, precisa renunciar a uma atitude realista com referência ao dinheiro. Não se espera que exija tal ou qual salário. Em diversos círculos é considerado “pouco elegante” falar de dinheiro, como se ser remunerado, à semelhança das atividades excretoras, fosse uma parte necessária da vida, embora o ideal seja agir como se não existissem. Grupos trabalhistas, adaptando-se às mudanças econômicas da indústria em massa, reconheceram que Deus não manda o cheque de pagamento pela boca do corvo, como o alimento enviado a Elias, e aprenderam por intermédio dos seus sindicatos a fazer pressão para conseguir salários adequados. Mas as pessoas que trabalham em cargos religiosos não podem fazer greve para conseguir salários mais altos. Supõe-se que a Igreja, em compensação, cuide financeiramente, e em outros sentidos, dos seus ministros, que recebem descontos em lojas e passagens. O ensino nos seminários é inferior ao de outras instituições, o que não aumenta, em nossa cultura, o respeito do ministro por si mesmo e o dos outros pela sua pessoa. O fato de não se esperar que o religioso tome medidas para garantir sua segurança financeira é outra prova da suposição tácita de que a segurança material virá automaticamente se a pessoa for “correta”, suposição ligada de perto à crença de que Deus toma conta de seus fiéis.

    Assim é fácil ver por que a pessoa que aprendeu a submeter-se e descobre, mais cedo ou mais tarde, que não obtém recompensa nem sequer econômica pelo sacrifício, e muito menos felicidade, sente tanto ressentimento e ira. É este ressentimento recalcado que constitui a dinâmica da exigência de ser bem cuidado. É como se a pessoa dissesse: “Prometeram cuidar de mim se eu fosse obediente. Eu fui. Então, por que não me protegem?”

    A crença no “divino direito de ser cuidado” acarreta muitas vezes o sentimento de que se pode mandar nos outros; isto é, se alguém acredita que se possa estar sujeito a outros, não só se submeterá a uma pessoa mais poderosa para ser cuidado, como se sentirá na obrigação de cuidar e mandar em alguém inferior a si mesmo. Esta tendência manifestou-se, em sua forma mais sadista, na declaração de um homem que, ao ser interrogado sobre sua habilidade em controlar o rapaz mais jovem com quem vivia, a ponto de receber seu pagamento aos sábados e forçá-lo a viver de mesada, respondeu: “Não sou acaso guarda de meu irmão”?

    Não tentaremos explicar as razões pelas quais as tendências dominadoras e submissivas andam de mãos dadas e o masoquismo é sempre o reverso do sadismo. Erich Fromm debateu de maneira clássica tais pontos em seu livro “Escape from freedom” (Fuga à liberdade). Desejamos apenas observar que a pessoa que exige cuidados tenta, de modo geral, por métodos sutis, exercer ao mesmo tempo seu poderio sobre outras. Goethe expressa muito bem esta verdade psicológica:

    "[...] pois quem é incompetente para governar seu ser interior é bem capaz de abalar a vontade de um semelhante, mesmo enquanto a própria mente orgulhosa inclina".

    Outra tendência alimentada pela dependência religiosa é a de auferir sentimentos de dignidade, prestígio e poder pela identificação com outra pessoa. Em geral, o processo toma a forma de identificação com a figura idealizada de um ministro, padre, rabino, bispo, ou qualquer pessoa de poder e prestígio que lhe seja superior hierárquico. Esta tendência, repetimos, não está confinada à religião; encontra-se presente nos negócios, na política e em outros aspectos da vida comunitária. É um fenômeno freqüente em psicoterapia, chamado transferência, e manifesta-se, entre outras maneiras, na necessidade do paciente de prestigiar o analista, a fim de adquirir prestígio pelo fato de a ele estar associado. Mas, em análise, isto é considerado um problema a ser eventualmente resolvido, e de maneira que o terapeuta seja visto com realismo pelo paciente e que este obtenha seus sentimentos de valor e prestígio de suas próprias ações e não das do analista. Esta tendência, na religião, parece repousar em nível mais profundo que em outras áreas de convívio social, e é reforçada por interpretações adulteradas de “sofrimento pelo próximo” e “expiação”. É como se cada qual tentasse viver por intermédio de outra pessoa, a ponto de ninguém saber onde de fato se encontra. Supreende com facilidade com que o ensinamento do amor cristão pode deteriorar-se, transformando-se no acordo generalizado: “Se você se responsabilizar por mim, eu me responsabilizarei por você”.

    As maneiras neuróticas de se usar a religião têm algo em comum: por seu intermédio o indivíduo evita enfrentar a própria solidão e ansiedade. Deus é transformado num “papa cósmico”, segundo a expressão de Auden. Quando assume esta forma, a religião é uma racionalização para disfarçar a compreensão – que contém uma boa dose de terror para os que a levam a sério – de que o ser humano, em suas profundezas, está basicamente só e que é inevitável, em última análise, fazer sozinho suas opções.

    "[...] é absoluto
    Terror e solidão
    Que impelem o homem
    A chamar de “Vós” o vazio" (Edna St. Vincent Millay. “Conversation at midnight”) Harper & Brothers, 1937).

    Assim fala um personagem de “Conversation at midnight” (Conversa à meia-noite), de Edna St. Vincent Millay. Mas se a necessidade de fugir ao terror e à solidão são os principais motivos de a pessoa voltar-se para Deus, sua religião não a tornará forte e amadurecida; e nem sequer lhe dará segurança futura. Paul Tillich, escrevendo do ponto de vista teológico, observa que a pessoa os enfrente em sua crua e total realidade. Esta verdade é igualmente válida do ponto de vista psicológico. A maturidade e eventual domínio da solidão só se tornam possíveis quando a pessoa corajosamente aceita, de início, sua própria solidão.

    Ocorreu-me muitas vezes que a razão pela qual Freud podia trabalhar com tanta coragem e propósito inabalável durante os últimos quarenta anos de sua vida foi ter vencido a luta para evoluir e trabalhar sozinho naqueles primeiros anos em que, após se ter separado de Breuer, fez suas pesquisas em psicanálise sem colegas ou colaboradores. Parece-me, além disso, que esta é a luta que figuras criativas como Jesus venceram no deserto, e que o verdadeiro significado das tentações não foi o desejo de pão ou de poder e sim, conforme as palavras do demônio, lançar-se do alto da montanha para provar que Deus o protegia:

    “Ele entregará aos anjos o seu cuidado;
    Nas mãos o levarão,
    Para que nas pedras não tropece"

    Quando a pessoa consegue dizer “não” ao impulso para ser “cuidada”, quando, em outras palavras, tem a coragem de ficar sozinha, pode então falar com autoridade. A recusa de Spinoza em fugir à excomunhão de sua igreja e comunidade não significaria que vencera a mesma luta interior pela integridade, pela capacidade de não temer a solidão, sem as quais a “Ética”, certamente uma das maiores obras de todos os tempos, não teria sido escrita?

    Contudo, Spinoza faz uma declaração que irrompe como uma aragem fresca no pântano mórbido e nevoento da dependência religiosa: “Quem ama a Deus não deve esperar por ele ser amado”. Nessa expressiva frase fala o homem corajoso, que sabe que a virtude é felicidade, e não um recibo para obtê-la; que o amor de Deus é a sua própria recompensa; que a beleza e a verdade devem ser amadas porque são boas, e não porque redundarão em crédito do artista, cientista, ou filósfo que as ama.

    Spinoza, naturalmente, não sugeria de modo algum a atividade de mártir, masoquista, que sua frase poderia assumir aos olhos de alguns. Ele a enuncia de maneira mais inequívoca, a característica fundamental de uma pessoa objetiva, amadurecida, criativa (em suas palavras, a pessoa abençoada e alegre), que tem a capacidade de amar algo por si mesmo e não pelos benefícios que poderá obter, ou pela sensação de prestígio e poder que lhe adviriam de empréstimo.

    Não há dúvida de que a solidão e a ansiedade podem ser enfrentadas de maneira construtiva. Embora isto não possa ser feito por intermédio do “deus ex machina” de um “papa cósmico”, será conseguido se o indivíduo enfrentar diretamente as várias crises do seu desenvolvimento, passando da dependência à maior liberdade e integração, desenvolvendo e utilizando suas aptidões e relacionando-se com os seus semelhantes através de trabalho criativo e de amor.

    Isto não quer dizer que não haja autoridade na religião ou em qualquer outro setor. Quer isto sim dizer que a questão da autoridade deve ser encarada em sentido contrário, ou por outra, como uma questão de responsabilidade pessoal. Pois o autoritarismo (a forma neurótica da autoridade) aumenta na proporção direta em que o indivíduo tenta evitar a responsabilidade dos próprios problemas. É precisamente em análise, por exemplo, que o paciente sente alguma ansiedade particular e procura a autoridade do analista. E o fato de que em tais ocasiões tende a identificar-se com o terapeuta, com Deus e com seus pais constitui outra prova desta afirmação: está em busca de alguém a cujo cuidado possa se entregar. Felizmente não é difícil demonstrar que o analista não é Deus – e é um dia importante para o paciente aquele em que descobre tal fato e não fica assustado. Emm vez de tentar discutir consigo mesmo e com os outros sobre os méritos de diferentes atitudes, portanto, é melhor inicialmente enfrentar a si mesmo, perscrutar-se com a indagação: “Qual a ansiedade que me faz desejar voar para as asas de uma autoridade, e qual o problema a que estou procurando fugir?”

    O resultado desta discussão é que a religião é construtiva quando fortalece na pessoa seu senso de dignidade e valor, ajuda-a a confiar no uso e desenvolvimento de sua consciência ética, liberdade e responsabilidade pessoal. Assim a fé ou as práticas religiosas não poder ser chamadas “boas” ou “más” em si mesmas. A questão é: até que ponto a crença ou prática, para determinada pessoa, é uma fuga á liberdade, um modo de se tornar “menos” pessoa? Até que ponto é um modo de fortalecê-la no exercício de sua responsabilidade e capacidade ética? A pessoa louvada na parábola de Jesus não foi a que estava temerosa e “enterrada” seu talento, e sim a que corajosamente o usou; sendo “boa e fiel”, recebeu maior poder.

    Do livro "O Homem à Procura de Si Mesmo, Rollo May.


    Azuramaya

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    Re: Religião: manancial de força ou de fraqueza? O Divino Direito de Ser Protegido

    Mensagem  Azuramaya em Seg Jul 11, 2011 6:23 pm

    Começou o espetáculo e o homem se apodera da sua história descobrindo qual a causa de seus olhos para dentro e deles para fora.
    Oh céus, o tempo pára e o altar se descortina, tudo que passou passa e sua mente mergullha dentro do seio da Criação!
    Tudo sabe, tudo entende, tudo percebe!
    Nesse momento acaba o Universo, pois mais nada poderá atrelar o Principio Mental à ilusão dos sentidos.
    Qual argumento haveria para existir ao se saber que tudo é um grande nada? Como pode perder o sorteio quele que já o sabe de ante-mão?
    Qual a graça de viver se a vida se torna mecânica e previsível?

    Pelo inverso, vai homem às paixões e em mergulho se aprofunda em tudo o que pode sentir, sem o preocupar com nada mais, nada menos do que querer, sentir e dominar! Vai a besta até os confins da sua existência, vivendo-a de forma tão intensa que nada mais interessa além do sonho. Sem conhecimento e pleno de sensação, tomba inebriado pela sua volúpia.
    No pesadelo desse transe torpe, se afunda em incosnciência e sofre às penas da realidade aparente como se fosse verdade.

    Pois assim deveria ser a religião, o elemento capaz de regular a lucidez do conhecimento e a paixão que mantém o palco das ilusões.
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    Monstrinho

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    Re: Religião: manancial de força ou de fraqueza? O Divino Direito de Ser Protegido

    Mensagem  Monstrinho em Seg Jul 11, 2011 7:56 pm

    Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

    Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
    Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
    Por isso se nos não mostrou...
    Sejamos simples e calmos,
    Como os regatos e as árvores,
    E Deus amar-nos-á fazendo de nós
    Belos como as árvores e os regatos,
    E dar-nos-á verdor na sua primavera,
    E um rio aonde ir ter quando acabemos!...
    E não nos dará mais nada
    Porque dar mais seria tirar.





    Última edição por Monstrinho em Seg Jul 11, 2011 8:38 pm, editado 1 vez(es)
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    Monstrinho

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    Re: Religião: manancial de força ou de fraqueza? O Divino Direito de Ser Protegido

    Mensagem  Monstrinho em Seg Jul 11, 2011 8:01 pm

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    Monstrinho

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    Re: Religião: manancial de força ou de fraqueza? O Divino Direito de Ser Protegido

    Mensagem  Monstrinho em Seg Jul 11, 2011 8:32 pm

    Olá,

    Espero que gostem desse canto de Zaratustra, publicado no blog anteriormente: http://mascarasdedeus.blogspot.com/2011/06/dos-virtuosos.html


    Dos Virtuosos


    “É com grande reforço de trovões e de celestes pirotécnicas que é preciso falar aos sentidos sonolentos e adormecidos.

    Mas a beleza fala em voz baixa; ela só penetra nas almas mais despertas.

    Meu arco tremeu mansamente, e me sorriu: era o riso sarado, o estremecimento sagrado da beleza.

    E de vós, homens virtuosos, que ria hoje a minha beleza. E ouço sua voz dizer-me: ‘Eles querem ser bem pagos!’

    Quereis ser bem pagos, homens virtuosos! Quereis uma recompensa para a vossa virtude, e o céu em troca da terra, a eternidade em troca do dia presente!

    E contudo me exprobais por ensinar que não há um celeste distribuidor de recompensas e retribuições? E, na verdade, ensino que nem a virtude é para si mesma a própria recompensa.

    Ah! É a minha dor; desde o âmago das coisas penetrou a mentira da recompensa e do castigo, e até o fundo de vossas almas também, ó virtuosos.

    Mas a minha palavra, igual ao focinho do javali, voltará ao solo de vossas almas; eu quero ser para vós como a charrua.

    Será preciso esclarecer todos os mistérios de vossas almas; e só quando as tiverdes revolvido até o fundo e exibido à luz do sol, que vossa mentira poderá ser separada de vossa verdade.

    Pois eis aqui a vossa verdade: vós sois demasiadamente limpos para o pântano destas palavras: vingança, castigo, recompensa, retribuição.

    Vós amais a vossa virtude como a mãe ama o filho; ouvimos alguma vez dizer que a mãe queria ser paga de sua ternura?

    Nada vos é mais caro que a vossa virtude; vós aspirais ao círculo das metamorfoses; todo ciclo rola e se enrola sobre si para voltar finalmente a si.

    E tudo isso que realiza vossa virtude é semelhante a uma estrela já extinta, cuja luz ainda está a caminho, e em migração. Até quando viajará ela ainda?

    Da mesma forma, a luz de vossa virtude se propaga ainda depois que o ato esteja realizado. Se a obra for esquecida e morta, seu raio luminoso continuará a viver e a percorrer o espaço.

    Que seja o vosso próprio Eu a vossa virtude, e não um corpo estranho, uma epiderme, uma vestimenta! Que seja a verdade profunda de vossas almas, ó virtuosos!

    Mas há outros, é verdade, para quem a virtude consiste em torcer-se sob golpes, e não devereis dar ouvidos aos seus urros.

    E há ainda outros que chama virtude a preguiça de seus vícios; e logo que a sua inveja e seu ódio se preparam para o sono, sua ‘justiça’ se reanima e esfrega os olhos sonolentos.

    E há ainda outros que são arrastados para o abismo: é o seu demônio que os levará até lá. Mas, por mais que nele penetrem, mais brilham os olhos, mais ardentemente aspiram a seu Deus.

    Ah! O grito daqueles também chegou aos vossos ouvidos, ó virtuosos! ‘Tudo o que eu não sou, eu chamo Deus e virtude’.

    E ainda há outros que caminham pesadamente, ringindo como carretas que descem num terreno pedregoso; têm sempre na boca palavras de dignidade e de virtude; o que eles chamam virtude é a trave que lhes serve de freio.

    E há ainda outros que são semelhantes a simples relógios bem construídos; eles fazem ouvir seu tique-taque, e pedem chamem de virtude a esse tique-taque.

    Na verdade, aqueles me agradam; onde encontro desses relógios, eu os instigo com minha zombaria, e espero que eles aumentem o ramerrão.

    E outros são orgulhosos de sua parcela de justiça, e cometem, sob seu nome, todos os abusos, embora seja o mundo submergido sob sua injustiça.

    Ah, como a palavra virtude soa mal em suas bocas! E quando dizem: ‘Eu sou justo’, crê-se ouvir dizer: ‘Eu estou vingado’.

    Eles quereriam que sua virtude furassem os olhos aos inimigos: eles não se elevam senão para abaixar os outros.

    E ainda há outros que se chafurdam em seu charco, e que do meio dos caniços se fazem ouvir, dizendo: ‘A virtude consiste em chafurdar aprazivelmente no charco’.

    ‘Não mordemos ninguém, evitamos os que querem morder, e em tudo partilhamos o aviso que nos dão’.

    E ainda há outros gostam dos gestos e pensam: ‘A virtude é apenas um gesto’.

    Seus joelhos estão sempre dobrados, mãos juntas para o louvor da virtude, mas o coração não a conhece.

    E há ainda outros que pensam que para ser virtuosos basta dizer: ‘A virtude é necessária’. Mas, no fundo, só crêem na necessidade da polícia.

    E alguns, impotentes para discernir a grandeza do homem, declaram que a virtude se reduz a perceber de perto as baixezas; sua malevolência, eis o que chamam virtude.

    E alguns desejam ser edificados e reeducados; é o que chamam sua virtude. E outros pedem para ser resolvidos; é o que chamam sua virtude.

    Assim, quase todos pensam participar da virtude, ou ao menos crêem ser conhecedores em matéria de bem e de mal.

    Mas Zaratustra não veio para dizer a todos esses mentirosos e a esses loucos: ‘Que sabeis da virtude? Que podereis saber da virtude?’

    Ele veio para que vós, meus amigos, vos desgosteis das velhas fórmulas que haveis aprendido dos mentirosos e dos loucos; para vós vos canseis de palavras como ‘recompensa’, de ‘retribuição’, de ‘castigo’, e de ‘justa vingança’; para que vós vos canseis de dizer: ‘Uma ação é boa quando ela é desinteressada’.

    Ah meus amigos, quando vos puserdes integralmente em vosso ato, como a mãe se põe totalmente em seu filho, eu direi que essa é a melhor definição de virtude.

    Na verdade, eu vos chamo por centenas de palavras e também os brinquedos favoritos de vossa virtude; e eis que vos zangais contra mim como crianças zangadas?

    Elas brincam à beira-mar, e vem a vaga e leva os seus brinquedos: e agora elas choram.

    Mas a mesma vaga lhes trará novos brinquedos e espalhará a seus pés novas conchas de variadas cores; elas se consolarão e, como elas, vós tereis também, meus amigos, consolações, e novas conchas de variadas cores”.

    Assim falava Zaratustra.






    Adilson Profício

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    Religião - Manancial de força ou de fraqueza?

    Mensagem  Adilson Profício em Sab Abr 07, 2012 3:52 pm

    Olá Monstrinho, gostaria de comentar o trecho abaixo, selecionado de seu artigo Religião - Manancial de força ou de fraqueza?

    Sobre a integração da religião à personalidade, o importante não é saber se a própria religião contribui para a saúde ou a neurose, e sim “que espécie” de religião. Freud estava errado ao sustentar que religião é por si uma neurose compulsiva. Qualquer setor da vida pode ser utilizado como neurose compulsiva. A Ciência pode ser utilizada como fé dogmática. Freud, contudo, estava tecnicamente certo ao fazer a pergunta correta em relação à religião: ela manterá o indivíduo infantilizado?
    Por outro lado, os que afirmam que a religião contribui para a saúde mental não estão corretos. Penetrar o significado íntimo das atitudes religiosas e avaliá-las, não como crenças teóricas, mas como aspectos efetivos da relação orgânica da pessoa com sua vida.
    As questões que propomos são: a religião de determinado indivíduo serve para quebrar-lhe a vontade, mantê-lo em plano infantil de desenvolvimento, capacitando-o a evitar a ansiedade causada pela liberdade e responsabilidade pessoal? Ou serve de base para a afirmação de seu valor ou dignidade, proporcionando-lhe o fundamento para uma corajosa aceitação de suas limitações e da ansiedade normal, ajudando-o a desenvolver suas aptidões, responsabilidade, força e capacidade de amar aos seus semelhantes?

    Interessante Monstrinho, que estive lendo Freud recentemente e o assunto versava sobre este tema. Eu entendo que toda crença é neurótica quando torna o indivíduo dependente dos seus conceitos, ou seja, o desestimula a pensar de forma crítica e livre. Concordo com Freud quando ele diz que a religião mantém o indivíduo preso à sua etapa infantil. Outra questão é dizer que sem a religião não podemos ter moral: o fato é que, embora ateu, eu sempre me comportei de forma ética. Não é pelo fato de termos ou não uma religião, que teremos tendência maior à moralidade; inclusive os ateus têm uma proporcionalidade menor no que se refere à quantidade de infratores, criminosos e presidiários. A religião é um produto cultural e não é de forma alguma imprescindível à sociedade. No referente à saúde podemos entender a oração em grande parte dos casos como um placebo, e noutros como o agente deflagrador do mecanismo imunológico do organismo, embora eu respeite os que pensem que o poder da prece é um efeito da ação do “espírito” sobre o corpo.
    Fraternal abraço!
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    Monstrinho

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    Re: Religião: manancial de força ou de fraqueza? O Divino Direito de Ser Protegido

    Mensagem  Monstrinho em Dom Abr 08, 2012 12:14 am

    Adilson Profício escreveu:Olá Monstrinho,

    1- Outra questão é dizer que sem a religião não podemos ter moral: o fato é que, embora ateu, eu sempre me comportei de forma ética.

    2- Não é pelo fato de termos ou não uma religião, que teremos tendência maior à moralidade; inclusive os ateus têm uma proporcionalidade menor no que se refere à quantidade de infratores, criminosos e presidiários.

    3- A religião é um produto cultural e não é de forma alguma imprescindível à sociedade.

    4- No referente à saúde podemos entender a oração em grande parte dos casos como um placebo, e noutros como o agente deflagrador do mecanismo imunológico do organismo, embora eu respeite os que pensem que o poder da prece é um efeito da ação do “espírito” sobre o corpo.
    Fraternal abraço!

    Olá, Adilson

    Seja bem-vindo.

    Há várias questões nesse post seu, e vou tentar respondê-las na medida do possível.

    1- Hum... Isso é complicado. A resposta é "sim" e "não". Sim porque, a moral consiste em prescrições baseadas na tradição, concernentes ao modo que nos comportarmos socialmente, sob pena de sermos punidos; e por outro lado, embora a moral esteja aí para todos os que "querem" praticá-la (não existe nenhum homem imoral, mas existem alugns amorais, o que é diferente), do ponto de vista tradicional, histórico e atávico, foi sempre a religião que fundou as suas bases.

    Aqui no ocidente é o caso do "honrai pai e mãe", que, apesar de ter se tornado uma regra "fora das instituições, do tempo e do espaço", sabemos que ela veio da religião.

    Então é preciso cuidado, porque, muitas vezes quando o "ateu" está dizendo que ele não precisa ter uma denominação religiosa para seguir regras e preceitos morais, na maioria das vezes ele já está sendo manipulado, não por uma denominaçao, mas por uma ideologia religiosa, que ele mesmo não sabe dizer qual é.

    Por outro lado, muitos ateus gostam de afirmar isso que vc disse acima, pq o fanatismo dos religiosos e crentes estão baseados em ilusões que tendem a criar perseguições e sofrimentos incríveis. Aqui estou com vc: não é preciso pertencer a nenhuma denominação religiosa para ser uma pessoa de bem socialmente.

    2- E por que será hein?? A tendência à moralidade, sem dúvida alguma advém das punições previstas pelas religiões, como o inferno, o purgatório, o umbral, a reencarnação dolorosa. Também acredito que os religiosos têm uma tendência maior de transgredir normas morais, porém, veladamente, mas a questão é, por quê?

    3- Sim, concordo, embora em alguns casos ela sirva para pôr freio a algumas tendências em voga na nossa sociedade como infidelidades, sexolatrias, prostituição, e etc.

    4- A oração é uma ilusão. Sendo deus uma criação da mente, um conceito, logo ele é uma ilusão. Então o ego não está rezando para alguém. O ego está criando a idéia q que está rezando.

    Abçs,


    Adilson Profício

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    Considerações

    Mensagem  Adilson Profício em Dom Abr 08, 2012 12:02 pm

    Olá Monstrinho, suas considerações me fizeram pensar um pouco mais, relativamente às minhas convicções. Vou refletir sobre elas.
    Obrigado!
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    Monstrinho

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    Re: Religião: manancial de força ou de fraqueza? O Divino Direito de Ser Protegido

    Mensagem  Monstrinho em Qua Abr 11, 2012 7:31 pm

    Adilson Profício escreveu:Olá Monstrinho, suas considerações me fizeram pensar um pouco mais, relativamente às minhas convicções. Vou refletir sobre elas.
    Obrigado!

    Olá, Adilson

    Mesmo este fórum, com o seu título auto-propondo-se abordar a Filosofia Oriental como algo à parte, talvez possa ser uma forma de convicção. Mas não é, afinal, todo fórum tem que ter um título não é mesmo? E o título diz do assunto que se quer abordar.

    Até hoje eu não saberia dizer ao certo qual é, exatamente, o assunto a ser abordado aqui, de maneira estrita.

    Toda convicção é uma forma de alienação. Quando temos convicções, é porque estamos de certa forma, erguendo a bandeira dessa ou daquela escola filosófica, científica ou religiosa.

    Eu diria que o tema deste fórum é, de certa forma o cepticismo, mas não o cepticismo tão somente enquanto escola filosófica, mas enquanto postura perante a vida.

    E é fácil constatar, pela experiência, como as nossas convicções de ontem, são abaladas pelas convicções que temos hoje.

    A História da Ciência e o Ensino de Ciências, postula - em uma de suas correntes - que a Ontogenia recapitula a Filogenia, ou seja, a evolução conhecimentos adquiridos - e a maneira de pensar - pelo ser humano enquanto indivíduo, é semelhante à evolução dos conhecimentos adquiridos pela humanidade, em termos coletivos.

    Assim, sabemos que, todas as verdades científicas do passado que no seu tempo foram consideradas verdades inabaláveis, foram desbancadas. Então numa época a o Sol girava em torno da Terra; noutra, a Terra girava em torno dele, mas se pensavam que o Sol era fixo. Hoje se sabe que o Sol gira em torno do centro da galáxia (?).

    Mas, veja que interessante: a verdade "O Sol gira em torno da galáxia", é apenas uma hipótese, uma verdade relativa, pois, ninguém sabe se amanhã ou depois, a ciência descobrirá que o Sol gira em torno de outro astro. Qual?

    Assim também, nossos conceitos a respeito da vida, do mundo, e do que nós somos, muda através dos tempos. Numa época, quando crianças, olhávamos a abóboda celeste e nos impressionávamos de ouvir dizer "o Sol é maior do que a Terra", quando a nossa visão nos dizia: "Mas se ele está dentro da Terra, como é que ele pode ser maior que a Terra?[/b] Rolling Eyes

    Posteriormente, abandonamos essa verdade para acreditar nas verdades que aprendemos na escola, e assim por diante.

    Todas as nossas verdades e convicções são tão firmes quanto um prego fincado na areia Laughing, não é mesmo?

    Daí que não nos é lícito - para nosso próprio bem - aceitar como verdades absolutas isto ou aquilo.

    Sugiro ler, neste fórum, os tópicos que abordam do pensamento de Jiddu Krishnamurti, pois ele mesmo coloca a questão, que já fora colocada por Buda:

    "Não acredite nisto ou naquilo só porque está escritos nos livros sagrados; não acredite numa verdade, só porque o sapientíssimo fulano de tal disse; não acredite só porque todos acreditam". Poderíamos ir além: não acredite na ciência! Não acredite no que diz esta ou aquela corrente filosófica! "Teste! Experimente! (diria Buda), vá lá você mesmo e faça a sua busca (como fazemos ao utilizar o Google Laughing ) e descubra por si mesmo se aquilo que o poderoso e científico fulano de tal ou as escrituras disseram é verdade!. É simples assim!

    Nessa tradição da Filosofia Oriental, contudo, filósofos como Sri Ramana e Nisargadatta Maharaj, chegaram à interessante questão: "Eu sou Aquilo, ou seja, você já É, Aquilo que você está buscando.

    Diz Nisargadatta: "Eu não sou isto e nem sou aquilo, pois, o observador não pode observar a si mesmo".

    Tá complicado isso? A gente descomplica...

    De onde vem todo o nosso conhecimento??

    ==> Duas escolas:
    - Inatismo
    - Empirismo

    A primeira diz que nós já nascemos com algum conhecimento disto ou daquilo; a segunda, diz que, todos os nossos conhecimentos são advindos da experiência

    Como eu não sou nenhum Mozart na vida, vou supor que todos os meus conhecimentos são advindos da experiência.

    Qual experiência?? Quando eu nasço, já tem um mundo pronto, com conceitos, pré-conceitos, teorias, práticas, atitudes, comportamentos e etc. E o é então o meu conhecimento senão a aprendizagem desses conceitos, pré-conceitos, teoriais, comportamentos e tudo mais?

    Mesmo e unicamente do ponto de vista sócio-antropológico é muito fácil comprovar que você enquanto ser humano, não sabe nada, pois, o que você sabe é aquilo que te ensinaram.

    Como posso então dizer "sei isto, sei aquilo". "Sou isto e não aquilo"?

    O pai do meu pai disse a ele que, "se você apanhar na rua e chegar em casa chorando, você vai apanhar mais ainda". Quem não passou por isso? E, eu vou fazer isso com o meu filho a título de justificar "Sempre foi assim"?


    Sempre foi assim

    http://www.mascarasdedeus.blogspot.com.br/2011/04/sempre-foi-assim.html


    Então não somos aquilo que pensamos ser, mas somos aquilo que a sociedade faz de nós!

    Nesse processo de "duvidar de tudo", como diria Descartes, duvidemos até que "Eu sou aquele que pensa", porque, segundo Paulo de Tarso, nossos pensamentos não são nossos, uma vez que "É o Senhor que opera em nós o pensar, o querer e o fazer" (Uma provocadinha num "ateu" hehehe Twisted Evil )

    E ainda Paulo: "O ser humano é inimigo de Deus" Shocked (Que é Deus?)

    Um grande abraço e me desculpe pela prolixidade!






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    Re: Religião: manancial de força ou de fraqueza? O Divino Direito de Ser Protegido

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